Relicário das almas rejuvenescidas

Relicário das almas rejuvenescidas

Estimados leitores,

Chegou ao fim o último de três dias. Os raios de luz já tinham dificuldade em penetrar as janelas de tecto do enorme pavilhão que, aos poucos e poucos, ia sendo abandonado pelas pequenas multidões que o visitaram, durante o fim-de-semana. Àquela hora muito entardecida, as bancas começavam a ser despidas das mil e uma histórias que, como era hábito, voltavam a ser encaixotadas. Começavam-se a acender as luzes que não satisfaziam os itinerantes, por isso, aqui e além, despontavam focos multicolores de lanternas que davam uma nova roupagem, vibrantemente mágica, às antiguidades que ainda não estavam escondidas.

O sr. Belmoussa andava nestas andanças, literal e figurativamente, há cinco anos, e gabava-se por ser um vendedor de vidas, mais do que de velharias. As pessoas demoravam-se na sua banca, pois cada traste tinha a sua alma que, insistia, havia que dar a conhecer aos curiosos, justificando que, como com os espíritos não se brinca, se as almas não são compatíveis, mais vale deixar ficar para outro levar. E assim era: quantas vezes um comprador, depois de ouvir e conhecer a história de determinado livro de outros tempos, desistia da aquisição, muito embora a custo, soprando: “Com efeito, sr. Belmoussa, esta relíquia não tem espaço lá em casa!”.

O alfarrabista marroquino vendia as vidas dos livros de todos os géneros, tamanhos e feitios e, surpreendentemente, havia sempre clientela predisposta a ler em árabe, inglês, francês, português, espanhol, até em chinês! Por estes dias, recebeu a visita de um senhor um tanto ou quanto extravagante, mais pela maneira de pensar e menos pela forma de vestir, que pretendia um pequeno bouquinpara, dizia ele, voltar a rejuvenescer. O sr. Belmoussa, habituadíssimo a excentricidades, lembrava-se muito bem dele. Há uns bons meses atrás, num outro lugar, numa outra feira de velharias, tinha-lhe vendido um livro,com as páginas bastante amarelecidas, de um mestre japonês que, ao que parece, continha dez segredos e não mais, para retroceder no tempo. O encontro tinha-lhe ficado gravado na memória, pois muito raramente as almas combinam tão bem, como se fossem gémeas. Mas o homem voltou. Pelos vistos, esgotou os segredos que, vá-se lá saber porquê, têm um prazo de validade.

Desta vez, a coisa não estava fácil: caixotes e mais caixotes foram remexidos, adivinhando-se na nuvem de pó que se ia formando, que o desejo estava longe de ser satisfeito. O sr. Belmoussa, de mangas arregaçadas, gatinhava por entre tesouros e tesourinhos: castiçais de prata suja, estatuetas de madeira provenientes de todos os lados, conhecidos e desconhecidos, discos com vidas tão cheias de alegrias passadas, jarros, jarrinhos e jarrões de porcelana, cobre e ferro. Já o homem, a modos que desnudado – o paletó voou para cima de uma torre de livros, o colete foi atirado para uma poltrona mais velha do que antiga, os suspensórios passaram a ficar suspensos, ao longo das calças, para que a camisa, aos losangos, fosse desesperadamente desabotoada, mostrando os seus mistérios, escondendo pouco os muitos pêlos de outras vidas, que teimavam em desobedecer à prisão da camiseta de alças, de um rosa para lá de berrante, e os sapatos bege, esses, fugiram-se-lhe e desapareceram dali -, emitia sons que lembram o vento quando passeia em rodopio, muito zangado. Assim como os magotes de todas as idades apareceram, assomando-se para ver o que se passava, assim dispersaram: o sr. Belmoussa equilibrava-se, novamente, nas duas patas, erguendo, qual herói extremamente pícaro depois dos everestes de sofrimento, um livro, não, o livro tão apetecido. Não houve sequer tempo para medir vontades de outros mundos: lá se foi o homem, com mais uma alma a esperançar debaixo do braço, pela módica quantia de meia vida, com desconto à sua, pois claro!

O baú de situações caricatamente espirituosas do sr. Belmoussa transbordava há muitas feiras atrás e, quando fosse muito velhinho, sabia que iria reabri-lo, sempre com a certeza de que nunca tinha despachado nada que não fosse parar às mãos certas. Raríssimas vezes, tratava-se apenas de ver-se livre de bugigangas, bibelots apáticos, rachados de histórias desinteressantes. Porém, estas vezes contavam-se pelos dois dedos sobreviventes da boneca russa que teimava em não vender, por acreditar que a sua alma gémea andava perdida a levitar num outro mundo, que não este.

Tudo tinha uma história. Como aquele caderno que lhe foi doado pelo seu sobrinho, nada a contragosto. Mohamed tinha ido, contrafeito pela urgência dos pais que queriam pôr mais pão na mesa, estudar dois anos para uma cidade francesa. Na escola, logo no primeiro dia, deram-lhe um saco de serapilheira com uma caneta, um lápis, uma borracha e aquele caderno que, forçosamente, teria de ser o seu melhor amigo. Teria, mas não foi, porque cá o Mohamed é de ideias fortes que vincam, dê a quem doer, a sua persona com bestiais tonalidades. Assim que chegou a casa, naquele dia, escondeu o caderno debaixo da cama. Era o que mais lhe faltava: obrigarem-no a desenhar letras em retângulos, ou seriam quadrados? Como raio escreviam os franceses em cadernos de linhas confusamente desalinhadas?! Volvidos dois anos, o caderno ressuscita do meio das tralhas da mudança - finalmente, o regresso a casa! -, e vai passar a ser propriedade daquele tio de barbas religiosamente aparadas todos os dias, às 04h:50min., nem mais, nem menos um minuto – manias, sei lá!–: o sr. Belmoussa.

Os caixotes que se amontoaram, com a ajuda dos outros feirantes, rapidamente entraram na carripana metalizada, hoje, ó que felicidade!, com os faróis de nevoeiro a funcionar. Para o fim, como sempre, a alma sofrida como gostava de lhe chamar o sr. Belmoussa. O frigorífico alaranjado pelo tempo e esburacado pelos encontrões, uns violentos, outros nem por isso, era daqueles muitos antigos, cuja porta se fechava com uma chave. Uma vez perdida, a vida deixaria de ter sentido, pois a porta não se segurava fechada sem ela. E pesado, muito pesado.

A sua história não era bonita. Tinha saído da fábrica com um defeito no motor. Os primeiros donos mantiveram-no dois meses, mas não aguentaram os roncos guturais que emitia, insuportáveis durante a noite. Passou, pensa-se, desde aí, por muitas mãos, viveu muitas vidas, a sua alma foi ficando rija, rija como as rochas que não ousam sentir. Antes de vir reformar-se para junto do sr. Belmoussa, talvez morrer por ser difícil encontrar um lar que o fizesse merecidamente repousar, viveu no quinto andar de um prédio belga, cujas escadas eram muito ingrimes. Com muitas feridas por sarar, quis o malfadado destino que, desta vez, o frigorifico nem sequer entrasse em casa, ficando à porta, mas não era por causa do barulho que produzia, quais rugidos que não lembram a ninguém, mas porque a casa era tão pequena que não havia espaço nem para ele, nem para a máquina de lavar roupa. Como se não bastasse, uma vez queos seus proprietários nunca guardavam a chave do frigorífico, os larápios de paladar aguçado, eram assíduos no queijo, no presunto e na cerveja. As maleitas não se fizeram esperar: de tanto abrir e fechar, a porta deu de si, e não tardou a ser recambiado para uma loja de ferragens, até ser recuperado pelo sr. Belmoussa, sempre pronto a dar uma nova vida a almas rotas de fé.

E lá estava ele, arrumado com muito jeitinho, depois de empurrado pelas barrigas salientes - a união faz a força! -, para não estragar mais, num cantinho da carrinha de caixa-aberta, pronto a seguir viagem, ao cuidado do sr. Belmoussa.

Com Sol,

Celina!

LEIA TAMBÉM