A distância dos encontros na próxima estação

A distância dos encontros na próxima estação

Queridos leitores,

“Como é que uma pessoa tão inquieta, tão criativa, energética, consegue equilibrar o sonho com a realidade? Olha… essa pergunta é muito difícil. Eu acho que acreditando que não há nada impossível, pode ser que haja algo improvável, mas não impossível. Eu gosto de me desafiar sempre e gosto de pensar em alternativas, não me centrar no que falhou, sempre a pensar no desvio, como sair deste embaraço, para encontrar soluções. Eu cresci assim, está no meu sangue. Quando se é pobre, quando se tem muitas dificuldades, cresce-se em sociedade. É preciso não se ser só bom, é preciso ser extraordinário, que é para ter realmente oportunidades”.

Alvalade. A voz despertou para a realidade os poucos passageiros daquela carruagem. Saiu a mulher com o bebé ao colo que se entreteve, desde o Campo Grande, a bater com as palmas das suas mãozinhas no vidro da janela baça. Não teria mais do que 18 meses. Ninguém entrou. Assim como abriram, fecharam-se as portas mecanizadas. Ele trocou de lugar, possivelmente faz-lhe confusão sentar-se contrário à direcção que o metro leva. As vozes que saíam do seu telemóvel, que escondeu no bolso interior do sobretudo verde musgo, calaram-se, mas ainda deu para espreitar que assistia ao que parecia ser uma entrevista. Ainda não é verão, mas os dias soalheiros já convidaram os turistas a vir desfrutar das altas temperaturas, desde meados de Junho. Talvez não tenha consultado a meteorologia, talvez esteja por cá há pouco tempo. Talvez aprecie o conforto que o seu casaco lhe dá e nada mais.  Donde virá? Quem será?

Roma. A estação está quase deserta. Não é de estranhar, é domingo, ainda é cedo. Entra uma africana, suspeito, enfeitada com colares coloridos, brincos e adornos na cabeça feitos de missangas. Antes de se sentar de costas para mim, encara-me, sem me devolver o sorriso. Que terá ela pensado? Por breves instantes, deixo-me embalar pela trepidação do vagão que me leva até à África Oriental. Será que é do Quénia? Da Tanzânia? Gostava que a viagem se alongasse para ela me contar a sua história, para me mostrar como são aquelas planícies verdes do vale do Grande Rift onde vivem leões, antílopes, leopardos e tantos outros animais selvagens. Mas se os pensamentos param o tempo, os ponteiros da voz fazem avançar o metro, pela manhã, até ao Martim Moniz.

 Areeiro. Novamente, ninguém sai. Entra um grupo de jovens ruidoso, alheado dos restantes passageiros. Insistem em falar ao mesmo tempo e, pelo sotaque, devem ser argentinos. Possivelmente serão estudantes, ainda à descoberta da cidade, a julgar pelas consultas frequentes ao mapa, fixado na parede, que informa sobre as estações da linha verde. O rapaz mais alto chega mesmo a apontar e, de entre muitos “che”, super oralizantes, percebe-se que querem sair em Arroios. Seria interessante que o grupo pudesse conhecer o país, sei lá, parece que os estou a ver numa taberna em Mirandela a degustar uma bela de uma alheira ou até mesmo…

Abrem-se as portas e a algazarra conseguiu esmagar a voz que, certamente, anunciou a Alameda. A africana sai e eu não a interpelei, não a conheci. Bolas! Mas ele continua ali, parece deliciado com as sacudidelas do metro, não despregando o olhar da janela. No momento em que começa a remexer no interior do seu sobretudo, entram dois homens de fato apressados, quase que as portas se fechavam antes de poderem saltar para dentro daquela que será a próxima viagem deles. Acabam por se sentar, lado a lado, mesmoà  minha frente. Eu vou começar por falar dos males que o colonialismo trouxe… Olha, aproveita para referir a erradicação da febre amarela, da poliomielite e da oncocercose. Sim, um dos benefícios do colonialismo que vai desencadear uma discussão em torno das ajudas na vacinação contra a Covid-19. Não há volta a dar, Francisco. Na continuidade, avanço com a Segunda Guerra do Congo, no anterior Zaire. Correcto, a lembrança da guerra mais sangrenta a seguir à Segunda Guerra Mundial. Temos que lhes explicar a guerra civil no Ruanda. No tocante a esta parte da palestra, mencionarei, para concluir, Mohamed Bouazizi. Certo, a Primavera Árabe.

Arroios. O grupo de jovens precipita-se para a porta e voa para a estação, atravessando-a a correr com pouco silêncio. Ninguém entra para perturbar o plano que os professores estão a delinear para uma palestra que ocorrerá, muito em breve, algures em Lisboa, muito provavelmente numa universidade, sobre a África. Um deles esconde o livro de Gordon Kerr, “Uma Breve História de África”. Será que já estiveram por lá? Se sim, onde? O segundo maior continente tem 54 países… Será que conhecem o país dele? Por mais que os professores não tenham reparado na sua presença, eu apanhei-o a ele, caçado na indiscrição, a virar-se para trás, e contei: três vezes. O que será que lhe despertou a atenção nesta conversa sobre aquele continente? Da última vez, fitei-o intrusivamente, tal a minha desfaçatez, sem sucesso. Nem me viu! Divide o seu tempo entre a curiosidade, muito ao de soslaio, sobre os professores, e a rabiscagem no seu bloco de notas. Tem ar de escritor, diria. A forma como observa, como se instala dentro do seu sobretudo… Pode ser que seja jornalista. Sim, comporta-se como um jornalista. Estará a preparar uma reportagem sobre a Carris? Não, sobre este vagão, sobre os passageiros deste vagão… Será sobre mim, também?

Anjos. O metro ainda não tinha parado completamente, já os dois presumíveis professores se contorciam, equilibrando os livros debaixo do braço, para abandonarem a carruagem. Eles saem, ninguém entra, porque ainda é domingo, faltam dez minutos para as onze. Ele fica. Eu também. Do meu lugar privilegiado, posso observá-lo sem riscos de me ver reflectida no vidro da sua janela. Estranhamente, o metro rola nos carris silencioso, quase que oiço o lápis dele a escrever no bloco. A contemplação não dura muito, pois fecha o bloco e abre exageradamente o sobretudo para o arrumar. Entra o caderninho, sai o que parece ser uma revista. No gesto mais calmo do mundo, passa os seus dedos pela capa, olhando-a enternecido, e pousa a revista no banco ao seu lado. E levanta-se, dirigindo-se às portas que, dentro de segundos irão abrir. Então, ele vai deixar ali a revista? Estará tão absorto e, irreflectidamente, abandonou-a ali? Porquê? Vou-lhe dizer que deixou uma revista no banco. Devo-lhe dizer? Como lhe digo?

Antes de ter podido reagir, ele desce do metro no Intendente. Ainda tenho tempo de correr para o banco que ele ocupou, pegar na revista e agitá-la freneticamente à frente das portas que não esperaram. Com a revista colada à porta, consigo vê-lo a afastar-se, no patamar da estação, até aos braços de alguém por quem esbraceja e grita entusiasmado, não há dúvidas, de nome Elton.

Falta uma paragem para o Martim Moniz. O tempo suficiente para descobrir que se tratava da Literatas, uma revista de Artes e Letras de Moçambique, anunciando na capa a entrevista a Eduardo Quive “O mais interessante que posso dizer sobre mim é que antes vendia jornais, agora sou jornalista”. Começo a folhear a revista e lá está ele: pulou da nossa carruagem para a secção das letras! Umas páginas à frente, encontro Nyota Ndogo, com o bebé ao colo ,como é que é possível?, na parte dedicada à música. Ansiosa, passando a perna à duração do percurso entre o Intendente e o Martim Moniz, percorro as páginas para os encontrar a todos pelas diferentes secções: a senhora das missangas nas Artes, os dois professores na Reportagem, o Elton Pila nas Aspirações.

Martim Moniz. Mal a voz termina o anúncio, as portas abrem. E eu saio, não antes de ter sobraçado a minha nova revista domingueira.

Com Sol,

Celina!

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