Japone Arijuane: a noite é um ensaio para a morte

Japone Arijuane: a noite é um ensaio para a morte

“Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio” (Literatas, 2014) foi o primeiro acto. E depois a escuridão e o silêncio. O silêncio da voz em livro, porque em textos soltos fomos o sabendo ainda vivo. “Ferramentas para Desmontar a Noite” (Fundação Fernando Leite Couto, 2020) chegou depois de seis anos. A consciência literária é um organismo vivo. É verdade que as carreiras literárias não começam com o primeiro livro lançado, tanto que existem escritores que o são mesmo antes de livros publicados e outros que mesmo depois de tantos livros continuam a não o ser. Mas ainda assim se pode pensar no que Japone Arijuane andou a crescer desde o primeiro livro. A reavaliar a escrita, a afiar o lápis, a procurar o traço denso, a experimentar novos caminhos. Apesar do amor com o cheiro a mofo que nos habituamos a chamar saudade dar provas do lirismo que marcou o primeiro livro, há aqui um novo registo. Como se o poeta não quisesse esquecer o que foi e ao mesmo tempo quisesse mostrar que pudesse ser outro em nome dos assombros que nos impusemos e que fazem com que a vida e a literatura continuem a valer a pena. É um outro olhar ao que lhe acontece a volta, o despertar da consciência política tão em falta nesta época de gentes em cima do muro enquanto o país chafurda na lama. Os três poemas que abrem o livro chegam com a estampa “ABC para pôr as mãos na massa” e são uma espécie de manual de instruções para as Ferramentas para Desmontar a Noite, sobretudo a de Junho. Como Japone faz notar, para todos os moçambicanos nascidos antes ou depois da independência, a madrugada – que há-de ser sempre uma extensão da noite ou antecâmara da manhã prometida - de 25 de Junho de 1975 é sempre este lugar simbólico de liberdade e de uma vida que começaria em nome próprio. A distância de 46 anos, quase nada mudou. E o poeta transformou a angústia em tinta e deu-nos o retrato de um país ensombrado e assombrado pelos fantasmas das guerras e tudo o que ela permitiu. Mas também pelas promessas desvanecidas da madrugada de Junho em nome do culto de personalidade que as guerras legam. Mas não é apenas Japone Arijuane a olhar para fora, temo-lo também a retirar a crosta das feridas interiores com uma navalha envenenada. O escritor Léo Cote disse-me que a um livro de poesia bastam seis bons poemas, Japone ultrapassa este mínimo e isto também diz muito sobre o porquê de o entrevistarmos. Algumas respostas sabem a pouco, temos a impressão que pudesse elaborar mais. Mas a entrevista, que foi feita por escrito, permitiu ao poeta mais tempo para apurar o raciocínio e decidir-se pelo traço que nos deixa. De qualquer forma, às entrevistas também podemos colar os chavões das obras literárias, nunca estão acabadas, o que é sempre uma janela para outra…

 

São seis anos que separam “Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio” e este “Ferramentas para Desmontar a Noite”. O que significou este tempo?

Amadurecimento e aprimoramento do método poético, a poesia é para mim um método de vida.

 

Neste período estive a ler e a reler, o que me permitiu, como uma abelha, extrair o pólen das flores que murcham em bibliotecas e compor o mel, este livro. Um livro que pretende saquear o ventre da noite e dar vidas a coisas inanimadas dentro da noite.  

Ainda este intervalo permitiu-me ver as coisas de um ponto de vista distante, sem, no entanto, estar fora delas. Foi e é um tempo necessário para meu processo de criação, que é deveras introspectivo.

 

Um processo de criação introspectivo, mas sentimos neste livro um sujeito poético muito atento ao que lhe acontece a volta…  

É como diz Vinicius de Moraes: “com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia”. Eu vou misturando o passado e o presente para ver se chego ao profético, como chegou Craveirinha. (risos)

 

Quem leu “Dentro da Pedra…” encontra um outro Japone neste “Ferramentas para Desmontar a Noite”. Como lhe chegaram as vozes para este segundo livro?

Pode ser que sim, pode ser que não. O facto é que, neste livro, tentei ser outro, sem, no entanto, deixar de ser eu mesmo.  É um livro feito de várias vozes que conversam entre si e juntas procuram uma outra voz, mais autêntica, a da liberdade.  

 

Perguntas-me onde as encontro? São vozes que me invadem o quotidiano, vozes que mesmo silenciosas fazem barulho, vozes do passado e do presente, vozes de um país que não pára de chorar. Vozes plantadas de terror de Cabo Delgado a Gorongosa, vozes libertas na hora do almoço na Sommershield.

 

 Porque queria ser outro neste livro. A voz do primeiro já não lhe identifica?

Na verdade, nunca deixei de ser eu, apenas aprimorei mais ainda este “eu”, cavei mais fundo a minha existência, despi-me de todos outros “eus” e fui ao encontro das raízes do que sou de facto e, introspectivamente, julgo ter-me achado. Não é tarefa fácil, como é óbvio, por isso precisei seis anos garimpando dentro de mim até chegar ao tutano do meu “eu” poético.

 

Olho “Ferramentas para Desmontar a Noite” ocorre-me “Para uma Cartografia da Noite” de Taruma e “Descrição das sombras” de Bonde. Afinal que encanto tem a noite?

Podia também falar de “No coração da noite” de Armando Artur e outras noites que andam por aí, algumas mais noites que as outras, mas não há relação. Para mim a noite é uma incógnita, pode ser que seja para outros e o seu encanto reside precisamente nesse misticismo. Julgo que ninguém conhece a noite ao ponto de descrevê-la de cor. É a noite onde deixamos as aparências e tornamo-nos a essência de nós próprios, nós enquanto seres insignificantes que somos, despidos de vaidades e egos, a noite é o lado lúdico da vida. Um ensaio para morte. Porém, no livro, a noite aparece como a metáfora de tudo que nos desmonta a felicidade: a guerra, a pobreza, o nepotismo, a corrupção, todo esse ensaio para a loucura que esse país de loucos nos impõe.

 

A noite é uma metáfora em que cabe tudo. Afigura-se um espaço de medos, angústias, ódios, mas também de silêncio, prazer, descanso. Que relação tem com a noite?

Uma relação de ruptura, de desmontar, o que remete, logo a posterior, ao montar de novas luzes, uma claridade às coisas belas da vida. É um desmontar para montar o amor, o amor à vida, o amor aos outros, que somos todos nós; o amor às coisas; o amor ao próprio amor. O amor é tudo que nos pode libertar deste abismo que, metaforicamente, chamo de “a noite”, meu caro!

 

Parece-me “Ferramentas para Desmontar a Noite de Junho” o título completo do livro, os poemas desta parte mostram um sujeito poético desiludido com os rumos do país, longe das promessas que animaram a luta que sugeria outra vida no pós-independência. Mas Japone nasceu em 87, 12 anos depois da independência, que relação tem com esse período?

Nossas vidas, todos nós enquanto seres humanos oriundos desta parte da terra chamada Moçambique, independentemente da nossa idade, fundamentam-se neste mês, o da independência, neste Junho utópico que nos embalou o coração e hoje nos embaraça a alma.  Era suposto que toda essa suposição que nos impõe a viver ficasse para história. A independência não faz sentido algum quando se coloca em causa as liberdades fundamentais do homem, nem a igualdade faz sentido quando não existe a equidade. Este é um livro que quer dizer poeticamente o que com poesia já não se diz.

 

“… é preciso amadurecer o sol/ reinventá-lo às costas da noite”, a poesia é este espaço de reinvenção da vida, da realidade?

A poesia é uma janela aberta à terra prometida, a terra que nos foi prometida ao nascermos e que nós prometemos aos nossos filhos quando nascem. Podemos, poeticamente, reinventar a realidade, mas importa transformá-la, precisamos transformar a realidade, adequá-la ao nosso bem-estar, mas enquanto escrevermos para o silêncio das livrarias e o mofo das bibliotecas difícil será transformar essa realidade que vivemos.

 

Há um verso assim “estamos todos mortos dentro do nosso silêncio/ urge amassar gritos para acordar o pão”. Neste livro parece-me mais comprometido com o carácter político, sem desprimor do estético, da Arte, da Poesia. O que lhe levou a esta consciência?

A realidade actual exige essa consciência. É preciso que as pessoas saibam que quando falta pão, transporte, educação, de forma endémica e sistemática, é um problema de políticas doentias. Alguém substituiu os neurónios pelo estômago na hora da decisão, e é estranho como isso é tão óbvio e muita gente finge não saber.

 

Neste livro procurei não falar de borboletas e tulipas, mas de aspectos que assombram o nosso dia-a-dia e minam-nos o futuro, enquanto humanos e, em particular, moçambicanos. Porém, sinto que há neste livro um investimento maior à própria poesia em si, não adianta falar de adversidades político-sociais sem usar a poesia, como disse no início dessa conversa, a poesia é para mim um método de vida.

 

No actual contexto, como diria Brecht, falar de árvores é quase um crime, como se fechássemos os olhos às injustiças?

Principalmente, para um país como este onde parece haver uma apetência para atrocidades. Acredito que a única responsabilidade revolucionária de um poeta é escrever bem e melhor, se não o fizer, alegando questões alheias a esse propósito, então esse poeta deve, imediatamente, resignar-se e abandonar a poesia. E porque me vejo com essa responsabilidade cabe a mim apenas cumpri-la, trazendo poeticamente essas ferramentas para desmontar a noite que nos assombra.

 

Mas em contraponto Charles Baudelaire diz que a poesia deve ter como objectivo apenas ela mesma, sob o risco de ser uma merda. Como olha isso?

Bom, para mim, esta é uma definição primária do que é e o que dever ser e como escrever a poesia, quando se chega ao que é a poesia de facto, apenas é. Mário Quintana diz que “a poesia não se entrega a quem a define”. Para mim o que é poesia já o é, independentemente do que trate.

 

O que eu tento fazer é dar sentido poético a um leque de fenómenos do meu dia-a-dia (do passado e presente), que acabam sendo fenómenos de todos nós. Indago, poeticamente, as questões que afligem a alma, questões que gostaria ver de outra forma, como diz Balzac “o amor é a poesia dos sentidos. Ou é sublime ou não existe. Quando existe, existe para sempre e vai crescendo dia-a-dia”.

 

Bom, se eu fosse um cidadão num país normal, um país em que as questões de estômago estivessem já ultrapassadas, num país onde não se ouvem disparos, onde não existissem vilas e distritos inteiros sendo tornados reféns da pólvora e da estupidez humana, nem pessoas sendo transportadas como gado, tenho certeza que minha poesia seria diferente. Isto porque, enquanto artista vivo numa sociedade com suas carências e características, e sempre, querendo ou não, essas marcas reflectem-se na minha arte. É como diz esta Pessoa chamada Fernando “Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste”.

 

A dado momento escreve “O amor são os outros” e parece uma antítese de “o inferno são os outros”. Tem ainda fé na humanidade?

Tenho fé e esperança na humanidade e no homem e no futuro, senão não me matava a escrever livros.

 

“… perdido a pescar o velho e o mar sem infortúnio da espingarda”, uma referência a Ernest Hemingway cuja vida é uma prova de que a literatura não cura as dores da alma.

Para os que a consomem, a literatura pode curar as dores da alma, ou seja, a poesia quando bem conseguida tem a função terapêutica, porém, para quem a faz dá-se um sentido inverso, às vezes, que são todas vezes, vivemos as angústias dos outros, e são essas dores alheias que carregamos que nos sobem à alma ao ponto de se desejar o beijo fatal de uma espingarda, como fez o velho Hemingway.

 

Todavia, hoje, mais do que nunca, o mundo precisa da poesia para se curar dessa loucura instalada na nossa vista e destilada na hora do telejornal e nas redes sociais. Para se curar desse vírus chamado pânico e angústia que nos foi instalado no rosto.

 

Ana Mafalda Leite fala, no prefácio, de um Sísifo. Lembrou-me de uma frase que Patraquim colocou à boca de Albert Camus: é preciso imaginar Sísifo feliz. Imagino o labor poético como este empurrar a pedra para o alto sem nunca a termos fixa. É feliz enquanto escreve?

Em parte, sou e isto depende muito do texto, há textos angustiantes e que são precisos vivê-los escrevendo-os e outros mais alegres. Contudo, sou mais feliz quando leio, sobretudo quando leio o que eu mesmo escrevo e surpreendo-me com isto, felizmente isso acontece sempre que volto aos meus dois livros até aqui lançados. Julgo a leitura ser a graciosidade da literatura, aliás, sem a leitura não há literatura, por isso sou feliz lendo e surpreendendo-me comigo mesmo e com os outros quando os leio, os outros sim, aqueles que fazem parte da minha família poética. Quais? Alguns já cá estão citados.

 

O teu livro de prosa teve menção honrosa no Prémio Eugénio Lisboa. Uma prova de que a poesia não te acantona ou que está no caminho certo da prosa?

Bom, na verdade a poesia continua, mesmo na prosa, como disse: a poesia é meu método de vida. Durante esse tempo de militância literária, apesar de me apaixonar pela poesia, nunca me desgrudei da prosa, li mais prosa que a poesia, e vinha já dando sinais disso, escrevendo crónicas e contos, então decidi avançar para uma empreitada mais densa. O prémio Eugénio de Lisboa serviu para medir a qualidade desse atrevimento. O que hoje me tranquiliza é saber que consegui chamar atenção do júri com o primeiro livro e lá já vão outros ainda inéditos, estou a aprimorar mais a técnica, a ler os clássicos, a experimentar técnicas poéticas na prosa, e julgo-me ter alguma coisa para mostrar.

 

Os dias que vivemos são dias de poesia ou de prosa?

São dias para literatura e a arte no geral. Precisamos reinventar novos mundos e os novos mundos a arte tem de sobra.

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