Um olhar a obra de Armando Artur, o vencedor do Prémio José Craveirinha

Um olhar a obra de Armando Artur, o vencedor do Prémio José Craveirinha

Acaba de ser anunciado o Prémio Consagração José Craveirinha: Armando Artur. Se é verdade que os prémios são sempre uma grande lotaria, não é menos verdade que os prémios literários em Moçambique tem sempre um quê de previsível. E isto pode ser entendido como um elogio ou uma crítica. Armando Artur, numa altura que celebra 35 anos de carreira, entra para o panteão dos escritores consagrados. E nos rebuscamos o olhar ao seu percurso.

 

Estreou-se em livro próprio em Espelho dos Dias. Volvidos 35 anos, conta já uma dezena de livros. Todos a marcarem o traço de um poeta que quer conjugar todas as possíveis funções da poesia, sendo profundamente influenciado pelo tempo que vive.

 

Há uma ilustração, assinada por Gemuce, em Muery: elegia em Si maior (Cavalo do Mar, 2019) que pode ser vista como uma metáfora da carreira literária de Armando Artur. O risco começa ensombrado, como se fosse um vulto, ganha contornos de esboço, expressão melancólica, depois é tingido de outras cores, menos tristes, e há um feixe de luz, de sorriso. É no processo destas quatro páginas, que nos faz chegar à ilustração definitiva, que está a metáfora de um artista sempre a procura do traço certo, do melhor verso, tingir de vida ou de morte a pena para o melhor poema, melhor livro de sempre, como se fechasse os olhos para todos os outros, e quisesse, a cada novo livro, superar todos os outros livros próprios.

 

Espelho dos Dias (AEMO, 1986) foi lançado em um tempo que ainda se celebrava a literatura. O prelo ainda expelia 3000 exemplares por obra. Agora, as editoras tiram em média entre 200 e 500. Estes números parecem levantar a bandeira do fim de uma época de leitores e com eles também de escritores. Jurgen Habermas já havia avisado numa entrevista ao El pais que não pode haver intelectuais se não há leitores. Onde se lê intelectuais se lê também escritores, jornalistas ou qualquer ser humano que faz da palavra um exercício de pensamento, de reflexão, de contestação, de expiação, de exorcismo, de catarse.

 

 A poesia de Armando Artur é sobre isso, mas se o quisermos colocar em um tempo, não há-de ter poiso fixo, é um pêndulo sempre em movimento, a apontar ao passado, presente, futuro.

Moçambique ainda aprendia a caminhar pelos próprios pés, vivia a euforia da vida em nome próprio, quando eclodiu a guerra-civil. Outra vez, o desencanto, almas angustiadas, outra vez seria preciso viver de futuro. É este estado de alma que captamos no primeiro livro, mas também nos outros, com os contextos que se lhe seguiram e impuseram. Afinal, o artista não se faz fora do seu meio, do seu momento/tempo, do estado de alma de uma sociedade de que também faz parte. Por isso há em Armando Artur, quando olha para fora, e muitas vezes olha para fora, aquela poesia socialmente comprometida, que vale também por ser emocional, reflexiva, que se adensa no ritmo e nas imagens, a negar apenas a arte pela arte.

Entre o dilema de arte pela arte ou uma poesia politica e socialmente engajada, Armando Artur coloca-se numa ménage à trois ou à quatre, o autor quer conjugar todas as possíveis funções da poesia, a estética, a social, a espiritual, colocando achas na fogueira que ajuda a ultrapassar o frio da noite, de Deus, e ajuda a chegar a um novo dia. “é urgente inventar/novos atalhos/acender novos archotes/ e descobrir novos horizontes”, (pág. 44). E o poeta, o artista, podemos ler nas entrelinhas, é o cicerone nesta romaria, como se anunciou em Zambezia, 2061, de Alain Kamal Martial, com Lucrécia Paco.

 

 O sujeito poético na obra arturiana, que talvez não pareça distante da pessoa, como se fossem faces da mesma moeda, o mesmo que se diz sobre Sophia de Mello Breyner, tantas vezes invocada por Armando Artur, sonha, incentiva a sonhar, ajuda a sonhar. “As manhãs sobem/ como um grito de esperança”.

 

A cada livro, sem intervalos constantes, porque – ele mesmo disse-o um dia – não escreve a pensar exactamente num livro, o poeta atesta que o homem é o barro do tempo, é moldado pelo contexto. Não se trata apenas de reflecti-lo como se fosse o poema uma sala de espelhos, mas de olhar o homem dentro destes contextos. O autor acompanhou os sonhos que animaram a luta que levaria a noite de Junho, o desencanto de uma nova guerra, as mortes, muitas mortes, outra vez a esperança e foi neste tinteiro que colocou a pena, sempre com o homem – o antigo e o novo - em linha, interpelando-lhe a conduta, exemplo maior é Os Dias em Riste (AEMO, 2002). A poesia de Armando Artur, como notava Ana Mafalda Leite, parece também viver deste compromisso conciliatório sobre a conduta humana, de que a temporalidade se investe.

 

O “eu” em Armando Artur é uma confluência de muitos “eus”, que se tornam “nós”, a tentar buscar o real, o essencial do ser humano, algumas vezes raiando o filosófico, questionando o lugar do homem na sua dimensão singular na órbita da nação humana. “Quando digo eu/ Somos nós todos num só/Porém em mim próprio. /Pois sou mais ou menos igual/Ou diferente do próprio eu.” (Artur, 2007: 61).

 

E o tempo, enquanto manhã, tarde, noite ou enquanto presente, passado, futuro, quase sempre presente na poética arturiana, serve para dizer sempre mais do que isso, é sempre uma metáfora por escavar, o mesmo acontece-se-lhe com a natureza. “Amanheceu. Dia brilhante./Oferenda divina. Urgência de re-partir/Todavia chove dentro de mim.  (Copiosamente!)” (Artur, 2007:34).

 

Armando Artur sempre estabeleceu relações com outros artistas, do seu tempo ou os que há muito já haviam reformado da pena e da vida. Esta “interpelação”, ora era feita em epígrafes, ora em dedicatória, ora em títulos, mas algumas vezes deixando que o leitor as ausculte.

 

(…) A poesia está na vida, / nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos, /(…) A poesia está na luta dos homens,/está nos olhos abertos para amanhã.” São versos de Mário Dionísio, poeta português, que muito dizem também da poesia de Armando Artur.

 

Entre o primeiro e o último livro de Armando Artur volveram-se 35 anos, 8 obras entre eles, entre eles também já se anunciava a ideia de poema-livro, Os dias em riste (AEMO, 2002) e no coração da noite (Texto Editores, 2007) são dois exemplos; a reinvenção da pedra (Cavalo do Mar, 2018) está ainda mais próximo desse registo. Mas Muery: elegia em Si menor, talvez também porque o género pede, esta ideia está ainda mais patente. É um livro que pode ter começado a ser escrito em As Falas do Poeta (Texto Editores, 2014), com o texto ‘Estes dias sem ti Milena’, que acaba, de qualquer das formas, sendo uma ante câmara desta elegia, um monumento a tragédia que é a vida em contra-mão a toda a esperança que apregoamos.

 

Enquanto esperamos a obra para percebermos como este tempo que agora vivemos, com as mortes a soprarem do Norte, enquanto tentamos entender o conflito e as interpretações multiplicam-se, vimos Armando Artur a construir o poema-clamor “Cabo Delgado clama por nós”. Chama para o texto a ideia de el dourado de que Cabo Delgado se mascarara, da possibilidade de promessas goradas e desse desalento que é também produto dela. “Cabo Delgado clama por cada um de nós/ Porque há uma flecha rente ao ventre/ Para embaciar a estrela da nossa alvorada”. São imagens e metáforas que desconstruídas representam esta outra metáfora que é a sorte a esvair-nos entre os dedos quando a tínhamos tão perto e tão certa.

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