A lenda das regalias

A lenda das regalias

Havia um navio, baptizado com o nome de Moçambique, que navegava nas ricas e quentes águas do Índico. Conta-se que fora construído com o mais precioso dos materiais: o sangue do povo.

São incontáveis as vidas dos homens e mulheres sacrificadas na construção de tal empreendimento. E cujos os nomes ninguém se recorda.

O Capitão da nau e os seus compinchas, os únicos dignos de serem lembrados e celebrados, sempre vistosos e soberbos conduziam a nau de olhos fechados por se dizerem conhecedores do mar. Se alguém que fosse ninguém por não pertencer a essa pequena elite que comandava o leme avistasse uma nuvem e se atrevesse a anunciar a eminência de uma tempestade era logo castigado. Engordar os tubarões era a paga para tal ousadia.

Aconteceu que, por temor a tal condenação, os tantos ninguéns que seguiam no barco, ensardinhados num minúsculo convés, passaram a rogar aos deuses do mar para que esses os cegassem e ensurdecessem de vez. Mais vale ser um mono do que viver com a guilhotina agarrada ao pescoço. O que foi encarado como uma bênção pela tripulação e motivo para celebrações infinitas nos seus espaçosos e luxuosos convés. A elite finalmente poderia seguir viagem ou melhor deixar o navio entregue ao Deus dará sem ter quem a incomodasse com críticas e alertas inúteis.

Era impressionante aquele barco feito de sangue anónimo que navegava sobre o Índico, sem que fosse preciso mover um dedo. Nenhuma nação, em toda a história da humanidade, tinha sido capaz de semelhante proeza. Talvez por essa razão,todas as tentativas de questionar como tal era possível eram consideradas manifestações de inveja e falta de patriotismo. Em suma, um crime hediondo digno de sentença de morte. 

Eis que certa vez uma grande tempestade se abateu contra o navio. O barco já afundava quando o capitão e os seus homens se aperceberam da tragédia. E agora o que fazer para salvar a nau? Debatia-se o povo, entre alaridos e súplicas.

Enquanto isso a tripulação decidia em consenso, numa reunião à porta fechada, distribuir entre si as boias que a levaria sã e salva para o continente. E onde quiçá construiriam um outro navio feito de sangue anónimo e voltariam a navegar nas ricas e quentes águas do Índico para que a lenda se repetisse vezes sem fim.

 

Paris, 07 de Maio de 2021

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