A nossa casa é onde lavamos as cuecas

A nossa casa é onde lavamos as cuecas

Caríssimos leitores,

 

No passado dia 05 de Maio, comemorámos o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Não me atrevo a discutir programas ou a destacar eventos, até porque sabemos que, nos quatro cantos do mundo, a data se assinala conforme se sente a História, se vive a cultura, se está a mais ou a menos no palco,a puxar lustro à lusofonia. Na evidência polifónica do português, debrucemo-nos, esta semana, sobre a diáspora.

Há mais ou menos um ano, decidi desafiar cinco amigos a encontrarem-se virtualmente para se conhecerem e partilharem experiências. Um encontro extremamente interessante, porque com pessoas inspiradas e sedutoras, que me anima, hoje, a escrever sobre ele.

Quem são os inspiradores? A Rita vive na França, desde 2011, em Strasbourg, onde trabalha como investigadora na universidade, mas já viveu em Pau, mais a sul, e passou por outros países tais como a Holanda, a Islândia e Moçambique. Tal e qual como a Rita, o Leonardo também é da Lousã, uma vila situada na região centro de Portugal. Actualmente, como trabalha na área das energias renováveis, ocupando-se das torres eólicas no mar, divide a sua vida entre vários países da Europa e visitas a casa. A Bibiana é brasileira, de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul, e vive na cidade de Bordéus como a Rita, na França. Com 27 anos, a Bibiana saiu do Brasil, onde estudava para ser professora, para aprender francês. Após descobrir o forte património na área da enologia, enveredou pelo mestrado em Economia do vinho. A Ana reside há oito anos no Reino Unido, e é de Coimbra, tendo passado por Moçambique e Angola. Em Londres, dá aulas de português não só a filhos de portugueses imigrantes como também a estrangeiros que querem aprender o idioma, entre eles refugiados da Somália, do Afeganistão e da Síria. Por fim, a Filipa é de Lisboa, já viveu nos Estados Unidos e, pela segunda vez, encontra-se em Timor-Leste, mais propriamente na capital, em Díli, onde é docente na universidade nacional. Uma brasileira e quatro portugueses, cinco aprendizagens.

Vejamos as motivações que os levaram a construir pontes. A Rita adapta-se muito bem à mudança e à diferença, até porque, ainda em Portugal, estudou longe de casa. O seu primeiro destino, já como emigrante, foi a Holanda, em 2007, não porque rejeitou o seu país, antes movida pela curiosidade e pela vontade de sair. Como ela própria explica, revendo-se no ditado que uma amiga emprega no costume, que diz que a nossa casa é onde lavamos as cuecas, sente-se bem em muitos sítios, acabando por construir uma zona de conforto”, o que não significa que perca a ligação com Portugal, pelo contrário, pode inclusivamente reforçá-la. O Leonardo deixou Portugal, pela primeira vez, em 2012, para fazer face à crise, partindo em busca de melhores condições económicas. A Ana declara que “as nacionalidades são rótulos; são também uma forma de identidade, quando nós partilhamos valores”, para compreendermos a sua vontade muito prematura em experimentar novas realidades. O pai nasceu na capital moçambicana, logo, ela cresceu com as “histórias dessa África absolutamente magnífica de paisagens rasgadas de imensa partilha e vivência”. Depois das memórias em Moçambique, vieram as construídas em Angola, pela necessidade de dar continuidade ao sonho de conhecer mais e mais. Em 2012, decepcionada com o governo português e com a arrogância do ministro que a convidou a sair se não estivesse bem, emigrou para a Inglaterra, um país onde jamais sonharia viver. A Bibiana sempre teve vontade de morar no estrangeiro e, objectivando superar dificuldades financeiras, assim que pôde, não olhou mais para trás. Para ela, “estar na Europa é a concretização de um sonho”, não tendo desejos de regressar: “o Brasil é o país onde nasci, mas não é o país que escolhi para viver”, concluindo que, como não tem saudades ou ligações ao outro lado do Atlântico, decidiu fazer vida na França e viajar pela Europa.

Sobre as dificuldades dos primeiros tempos, a Rita conta que, na Islândia, enfrentou algumas contrariedades com a cultura e com o clima, porém, no cômputo geral, sempre se sentiu confortável. Refere que há uma grande diferença se emigramos acompanhados: se por um lado nos sentimos mais seguros e protegidos, por outro, não vamos estar tão expostos ao Outro, fechando-nos num círculo que, perigosamente, se pode tornar vicioso. O Leonardo sofreu tanto com as temperaturas negativas, enfrentando logo no seu primeiro destino -44°, na Suécia, como com a falta da família e dos amigos, admitindo que, em termos económicos, os sacrifícios valeram a pena.  Como todos os seus interlocutores são portugueses, a Bibiana afirma que “vocês já moram na Europa, vocês são europeus, mas, para mim, foi uma diferença muito grande, de tudo”. Ela recorda que chegou ao território francês ao abrigo do programa Au Pair, ou seja, morava com uma famílias em quaisquer encargos financeiros, em troco de ajudar a tomar conta dos filhos. Com esta família, explica encantada, experimentou actividades que seriam inimagináveis no Brasil, por exemplo, esquiar nos Alpes ou viajar. Ainda sobre possíveis choques, a Ana menciona que a comunidade portuguesa vive um pouco desconectada dos ingleses, visto que há regras que obrigam a uma extrema sensibilidade. Por exemplo, no Reino Unido, há que saber estabelecer um diálogo sem jamais interromper o interlocutor, o que pode levar a mal-entendidos e, inclusivamente, a preconceitos, como sempre, descabidos. Se a Ana descortina um Reino Unido menos actrativo após Brexit, a Rita denuncia que, apesar de todos pertencermos ao espaço Schengen, nem todos temos os mesmos direitos, salientando, juntamente com a Bibiana, a difícil burocracia dos serviços franceses.

E quando o português já não é suficiente para comunicar? A Rita, que não falava francês quando chegou ao seu último destino, recorda uma formação intensiva onde aprendeu a língua de Napoleão adaptada ao mercado, muito correcta e bem diferente da da realidade. Depois de quinze dias, no “desenrascanço imersivo”, descobre que o vocabulário, afinal, é outro, pois, como acrescenta, “se não aprendemos os calões, metade das conversas passa-nos ao lado!”. Para ela, a aprendizagem da língua do país de acolhimento é necessária tanto para trabalharcomo para evitar equívocos, sobretudo, emocionais. Aliás, segundo ela, “na Europa, ou falamos outras línguas, ou não nos percebem” e, termina: “ficamos muito fechados, se não comunicarmos em várias línguas”. A Ana e a Rita concordam que as línguas nos mudam, despertando outras personalidades; a Filipa, ilustrando, sentia-se muito mais silly nos Estados Unidos. A Ana contribui para a discussão, referindo que até podemos falar inglês, mas, quando chegamos ao Reino Unido, ninguém sabe falar, justificando que, num país com mais de cem sotaques, não será certamente o inglês da BBC ou da Rainha que vai permitir aos estrangeiros vingarem numa nação em que não querem, de forma alguma, mostrar-se pretensiosos ou snobs. Segundo a Ana, “a língua é muito mais do que as palavras, são imensas emoções”. Corroborando, o Leonardo partilha que frequentou uma formação com bastantes dificuldades na compreensão, em Newcastle, situação oposta à que viveu, posteriormente, no norte da Inglaterra. Ainda sobre a língua portuguesa, conta que a ensina aos seus colegas de trabalho provenientes de vários países, destacando os polacos que aprendem com alguma facilidade a língua de Camões, partilhando, divertido, que, logo de manhã, o abordam e lhe perguntam “Como estás? Queres café?”.

Relativamente ao contacto com a comunidade portuguesa, a Rita faz um esforço por se integrar, não procurando portugueses para conviver. Na França, coexistem inúmeras associações, mas a fama em torno delas não a atrai: os portugueses são muito obstinados, trabalhadores durante a semana, mas, aos fins-de-semana, reúnem-se, embebedam-se e o fim da festarola termina, quase sempre, em encontrões contrabalançados com socos e murros. A imagem dos portugueses, na França, a somar à das porteiras e à dos pedreiros, estigmatiza as novas gerações de migrantes. Em Moçambique, a Rita aponta o dedo a muitos da sua geração ainda com espírito colonialista, infelizmente, um não saber ser vs. estar ainda existente um pouco por todo o mundo. Deploravelmente, ainda! Contudo, a grande maioria dos portugueses liga-se facilmente ao Outro, completa. A Filipa prefere juntar-se aos estrangeiros, dado que considera os portugueses invejosos, facto que o Leonardo explica por serem demasiado competitivos, algo que sentiu na própria pele, na região da Escandinávia. A Ana adiciona que, na Inglaterra, há muitos portugueses licenciados a servir à mesa, uma situação que pode gerar desconforto no seio da própria comunidade lusa. A sua visão de comunidade portuguesa é diferente, visto que, na sua óptica, “os portugueses são todos aqueles que falam a língua portuguesa”, alargando-a exponencialmente a todos os seus aprendentes. Em tom de lamento, conta que, quando chegou a Londres, procurou os serviços do Consulado e o Camões - Instituto da Cooperação e da Língua para a auxiliarem, de alguma forma, com a criação de uma biblioteca escolar, não obtendo resposta e sentindo-se, por conseguinte, abandonada pelas instituições do seu país. Facto curioso, conta-nos, é o de ter começado a procurar produtos alimentares portugueses em tempos de lockdown, na sua voz, tempos de incerteza que poderão tê-la levado a procurar conforto na gastronomia de casa. Já o Leonardo, sempre que está fora de casa, vai à procura de vinhos portugueses. No tocante à comida, indubitavelmente, não há competição entre os tugas lá por fora. Em jeito de exemplo, em Timor-Leste, há muitos produtos portugueses. Nas palavras da Filipa, “podemos levar uma vida quase totalmente portuguesa, com um cenário tropical de calor o ano inteiro, e com pessoas muito acolhedoras, que são os timorenses, pessoas fantásticas e muito habituadas a lidar connosco”.

A vontade de conhecer e experimentar mais culturas é uma dominante junto dos meus amigos, o que não surpreende, porque como diz a Rita “quando nós saímos e vivemos estas experiências, muda a nossa tolerância, a nossa abertura, a nossa capacidade de ir ao encontro do Outro. As pessoas quando estão no estrangeiro têm outra visão das coisas”. E, por mais que o nosso coração esteja noutro sítio, como o do Ana, o importante é compreendermos que as fronteiras são irrisórias em matéria, se há humanidade, linguística e sociocultural. Por ora, fica o desafio da Ana: juntarem-se, novamente, menos virtualmente por terras lousanenses, em volta de uma mesa farta, onde o vinho português não falte, com certeza.

Com Sol,

Celina

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