Em busca da oração mais confortável

Em busca da oração mais confortável

Caros leitores,

Conhecem o Manual prático da alegria e do bem-estar, do Mestre Sadhguru? Considero-me uma privilegiada por tê-lo na minha modesta biblioteca, junto a outros exemplares que, não descurando as obras dos entendidos da antropologia, são verdadeiros hinos alfarrábios à interculturalidade. Confortavelmente abandonada na poltrona, considero por não muitos segundos a partilha de umas quantas leituras, qual preceito da temática, para a coluna desta semana. Não! Afinal, esta semana, não! É que as melhores leituras faço-as no desconforto, expondo a minha pele, arriscando saciar as vontades da alma. Os encontros felizes durante as viagens são as melhores narrativas para ecoar valores interculturais.

E foi assim que a conheci, lá longe, em Timor Lorosa’e, num dia encantado como outros tantos, como só ali, ali mesmo, repetidamente junto ao mar. Luana, que não é timorense e não se chama assim verdadeiramente, nasceu em Portugal e é filha de pais cabo-verdianos que migraram há mais de 45 anos. Com seis anos, vai para a escola para aprender a contar, a ler e a escrever em português. A professora aconselhou os pais a não falarem em crioulo com ela em casa, para não “atrapalhar a integração”, como me contou. Hoje, considerando-se uma mistura da cultura cabo-verdiana com a portuguesa, lamenta esta lacuna: compreende e fala crioulo, mas não tão fluentemente como gostaria. Menciona que é importante que os países de acolhimento não anulem a cultura, ou não fosse ela um mundo de experiências multiculturais e apaixonada por culturas.

Já foi casada com um moçambicano muçulmano, com origens indianas que, tal e qual como ela, imigrou para Portugal quando era criança. Sem quaisquer resistências, a mulher que vos apresento, de quem tenho o grande privilégio de ser amiga, combina, nas suas práticas quotidianas, as culturas moçambicana, indiana e islâmica, com a cabo-verdiana e a portuguesa. Luana ilustra a sua vida plural com a música, a gastronomia, a roupa, inclusivamente, a religião. De momento, está em casa, em Lisboa, mas de olhos e desejos postos no mundo, recordando a sua passagem por Timor-Leste, que a vestiu com mais cultura. “A melhor forma de aprendizagem é, sem dúvida, quando nós temos a possibilidade de ir para outros países, para outros territórios; conhecer, lidar com pessoas de outras culturas, de outras vivências”, declara, imageticamente, viva no entusiasmo.

                Que aproximações é que Luana faz entre Cabo-Verde e Portugal? Os cabo-verdianos crescem e vivem numa região com clima e economia diferentes dos de Portugal. No arquipélago, as pessoas dedicam-se à agricultura, à pesca e ao artesanato, logo o desenvolvimento humano vai ser forçosamente diferente. Porém, a língua é comum, dado que o crioulo tem muitos vocábulos semelhantes ao português. Indubitavelmente, o crioulo é a língua de Cabo-Verde, mas o de Sal tem uma pronúncia diferente do de Praia ou do de S. Vicente. Luana explica que os cabo-verdianos comem à base de peixe, destacando a cachupa como prato tradicional nas nove ilhas. Apesar de também haver cachupa de carne, como é um alimento de luxo, dada a escassez, designa-se de “cachupa rica”. No festim gastronómico refere, ainda, a batata doce, a mandioca, o milho… Na música, são evidentes os ritmos africanos, influenciados por outras culturas, com recurso ao cavaquinho, ao violino e ao violão. Luana, brilhando também com o olhar, relembra a morna, com algumas semelhanças com o fado; o funaná, tipicamente cabo-verdiano, que obriga a agitar as ancas com ritmo bem expressivo; e a Koladera. Já o Kola San Jan, apesar de ser uma tradição em Cabo-Verde, tem origem nas festas juninas portuguesas.

                Quando se casou, Luana começou a introduzir tanto costumes moçambicanos, como islâmicos no seu dia a dia, exemplificando com a cozinha moçambicana. Contudo, foi a cultura islâmica que mais a transformou.

Luana foi batizada, cresceu com uma família católica, todavia é em árabe que reza, apesar de ainda se lembrar do Pai Nosso ou da Avé Maria. Em casa, não come carne de porco, por opção, mas se a mãe a convidar para uma farta cachupa de carne, não se nega ao repasto, revendo-se no aforismo “Em casa de romanos, sê romano”. Todos os dias, faz a ablução, purificando-se, e reza algumas suras que integram o Alcorão; inclusivamente, já cumpriu o Ramadão três vezes. Luana assume harmonizar os hábitos islâmicos com os católicos, mas sente-se mais confortável a rezar as suras do que a Glória ao Pai. Quando precisa de meditar, procura uma igreja na sua zona de residência, em Lisboa. Na cidade, existe a Mesquita Central, que pode receber as mulheres, mas, por se situar longe do seu bairro, segue a norma: as mulheres muçulmanas rezam em casa, não na mesquita. 

Luana é professora de História e, talvez por isso, não seja surpreendente gostar de estudar e entender as religiões. Nas suas palavras “Todas elas caminham numa mesma direção, e aquilo que eu gosto é de tirar o melhor de todas”, acreditando que há um único deus, somente com nomes diferentes.

                A minha amiga não se considera nem muçulmana, nem católica, precisamente, por respeitar ambas as religiões; no fundo, a sua maneira de estar puxa a linha na redundância da filosofia ideológica, mais do que religiosa, visto que para ela “as religiões são uma forma de aprender e de estar em sociedade”. A própria explica, por exemplo, que não são só os muçulmanos que procuram os talho halal, visto que há cada vez mais adeptos de carne de animais degolados, motivação justificada pelo facto de, se a carne sangrar, evitam-se bactérias e uma deterioração mais rápida. Luana diz que tem um lema em relação às culturas que tenta transmitir aos seus alunos, referenciando Saint Exupéry: “O contacto com o outro, que não é diferente de nós, longe de nos diminuir, aumenta-nos”, tendo acrescentado “Eu trago em mim o melhor das culturas que elas têm”.

                Para Luana, a sociedade portuguesa é multicultural, exemplificando com uma turma de 29 alunos que teve o ano passado, da qual relevou um nepalês, dois bengaleses, um guineense, um russo, um moldavo, um venezuelano, um brasileiro de origem japonesa e um santomense. Adiciona que nem sempre há interculturalidade em contextos multiculturais. No entanto, existem zonas onde tudo acontece naturalmente. Por exemplo, na freguesia de Arroios, que conta com quase 18 500 habitantes, coexistem mais de 92 nacionalidades. Nas visitas guiadas que fazia alusivas à multiculturalidade, era comum encontrar na mesma praça, por exemplo, às 07:00 da manhã, mulheres chinesas a praticar o Tai Chi Chuan ou, ao fim do dia, paquistaneses a jogar críquete, bem como ouvir a polifonia multilinguística. No seu entendimento, “a interculturalidade é difícil, tem o seu tempo, mas ela dá-se”. Até o fado, conclui, pode ter origens árabes, africanas ou brasileiras porque, na sua voz, “os portugueses deram novos mundos ao mundo”, e o contacto que tiveram com o outro permitiu-lhes trazer muitas culturas para Portugal.

                Como as Luanas que vou conhecendo, não tenhamos nunca medo de transformar meras visitas em viagens demoradas na aculturação, acreditando que todos estamos aptos para aprender a praticar a interculturalidade. Perturbemo-nos, por fim, com o que nos ensina Sadhguru Vasudev: “No momento em que cometemos o erro crucial de confundir algo que não somos nós connosco mesmos, a vida torna-se uma luta desnecessária” (Engenharia Interior, 2016: 49).

Com Sol,

Celina!

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