Talvez, um desabafo

Talvez, um desabafo

Que resta ao homem, suprimido o amor?

Buscar a morte p'ra fugir a dor,

Tristeza, indiferença - e nada mais.

Excerto de “Amar” Rui de Noronha, "Sonetos", 1943

 

Pensar a fome é em si um acto de a ultrapassar. Os poetas vencem as mais profundas angústias da existência, por fazerem delas matéria para um grito. Não é mesmo Taruma? Pico tira-se com pico, já dizia o provérbio popular. Mas a coragem sempre tarda a chegar. Fugir não é remédio. É apenas remendo. E mais cedo ou mais tarde a corda rebenta.

Quando temos fome o mundo é só vertigem. Muito barulho. Lá fora e cá dentro. A paranóia é inevitável. Encara-se a vida com desconfiança. Tudo fede a maldade. Impera o caos. Impossível de ler com clareza os sinais do dia. A única coisa inteligível é voz da fome. E passas a acreditar que todos conspiram contra ti. Que tens de te defender a todo o custo. E vais ver, estás desarmado.

Mas a fome é astuta como a cobra do Éden. Chega-se, gosmenta, ao teu ouvido e cospe o veneno. Agora já sabes onde encontrar uma arma para fazer frente ao vazio que te destroça por dentro. Arranjar culpados é como procurar árvores numa floresta. A seguir passas a vida acorrentado à crença de ver brotar um milagre, dos dedos, inutilmente, apontados para o nada.

Nas noites mais difíceis de suportar. Quando as trevas desabam sobre a minha cabeça. Abro-me para o pensamento como um pássaro atira-se para o voo.

Escrevo sobre a amargura da existência. Traguei o vinho amaldiçoado. Tenho a língua inchada e as tripas em brasa. Hoje foi quase um maço. O quarto enevoou-se de tanto fumo. Mas mesmo assim a dor é nítida e asfixiante como um clarão. Há sangue na parede. E é meu.

Todos viemos da dor. Por isso o choro à nascença. Com uma todos. Todos nós nos encaminhamos em direcção à felicidade. Uma busca, tantas vezes, tortuosa e injusta.

Quando, finalmente, nos cruzamos com a felicidade, nem damos por isso. Era feliz e não sabia. Dizemos tantas vezes. E quantas mais vezes continuaremos a dizê-lo?

Confesso que não sei a que propósito me pus a escrever isto. Talvez seja um desabafo a meio a tentas aflições e feridas existenciais que habitam este antes do nada.

 

Lisboa, 30 de Abril de 2021

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