Fotografia a “altas temperaturas” de Carlos Manhique

Fotografia a “altas temperaturas” de Carlos Manhique

O fotógrafo Carlos Manhique expõe no Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM) um conjunto de fotografias resultantes de um ensaio inspirado na metamorfose do corpo e do tempo. A exposição intitula-se “altas temperaturas” e está patente até 03 de Maio.

 

Podia se olhar para a fotografia de Carlos Manhique e ir-se directo ao assunto, o corpo. Seria essa a ideia que se transpõe naquela que, se calhar, é a principal ideia do autor, a massa esculpida sobre a coreografia da beleza da mulher, da juventude que não é eterna, como, aliás, se denota pelos utensílios que se transformam com o aquecimento e acompanham toda uma vivência. Mas é sobre os pés ou o corpo assente na Terra, de onde vem “todas as coisas” incluindo as panelas e as chaleiras que vão dando aso à narrativa da fotografia, talvez por isso o corpo coberto de barro, ou abraçado ao chão e todas as coisas ali existentes ou mesmo às águas do rio (salgado) sempre sobre o sol, deixando que a natureza forme as composições de luz e sombra.

Mas a expressividade dos corpos sobretudo encobertos de lama chamam mais atenção, o que sussurram, o que insinuam para bem dizer. É difícil pensar na sexualidade, vendo os corpos vestidos de barro, de panelas “enrugadas”, como se contassem estórias de tempos que se vão com a memória dos dias. Carlos Manhique procura expor a erosão da civilidade da vida jovem à experiência dos mais velhos.

A vaidade, a suavidade do gesto, uma beleza e vida centrada na materialidade da beleza na juventude, mas também a luta por uma autonomia, tudo representado em ensaios fotográficos em que o autor procurou controlar a narrativa, guiado por modelos expostos às condições naturais no cenário escolhido.

As cores e o ambiente são preenchidos por um simples vão das poucas nuvens do céu azul, a terra inóspita, com a mistura de terra e capim, visivelmente às altas temperaturas, daí o preto e o branco da fotografia roçar o castanho de um sol escaldante, daí a presença das sombrinhas.

Na visita guiada conduzida pelo curador Jorge Dias, o fotógrafo fala de uma fotografia intencionada, em que procura construir uma estória visual por detrás da intenção de falar das fases da vida, guiados pela exposição altas temperaturas”, não só do ponto de vista do clima, mas da própria natureza humana, as fases etárias da vida, com os próprios desafios da condição social.

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“Todas as coisas sofrem transformações ao longo do tempo. Existem as coisas que são moldadas e que ainda nos dias de hoje as usamos, coisas passadas e coisas futuras’’, explica Carlos Manhique.

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Por outro lado, a abrir e a destacar a exposição estão as imagens da mulher com os utensílios do “dia-a-dia”: a chaleira, a panela, com sinais visíveis de tempo de uso, como é tradicional das famílias moçambicanas. A mulher à beira do rio, a água aparente calma, como insinua o corpo dessas mulheres que vão tecendo imagens e discursos também através das curvas do corpo.

Imagens de panelas velhas enlaçadas pelos fios de arrames sobre o corpo que Manhique encontra nelas, a “conexão com a natureza”.

As fotografias foram feitas na zona de Matola Rio. “É um lugar importante para mim. É o lugar onde cresci. Eu frequentava o lugar e quando voltava para casa a minha mãe falava muita coisa. Então tive curiosidades. E decidi fazer lá este trabalho”.

A exposição “Altas Temperaturas”, que tem a curadoria de Jorge Dias e Nélia Bule, vai até 03 de Maio e está na Galeria Djanira, no primeiro andar do CCBM. Pode ser vista virtualmente, mas a expectativa é de que seja possível até à data de encerramento ser visitada pelo público.

Carlos Manhique nasceu a 30 de Outubro de 1995 em Maputo. Começou a sua carreira em 2017 e em 2018 entrou para Escola de Fotografia. Em 2019 fez a sua primeira exposição no Centro Cultural Guilhermina, no bairro da Liberdade, com o tema “Liberdade Condicionada”. Em 2020 ganhou o concurso internacional de fotografia com tema: ‘OBJETIVO ÁFRICA’ DEL CONSORCIO CASA ÁFRICA.

   

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