Bento Baloi inspira-se no Idai e escreve “Arca de Não É”

Bento Baloi inspira-se no Idai e escreve “Arca de Não É”

No seu segundo livro, o jornalista e escritor Bento Baloi publica crónicas inspiradas na magnitude das desgraças causadas pelo ciclone Idai, em Sofala. “Arca de Não É” sai sob a chancela da editora Índico e será lançado nesta quinta-feira, 8 de Abril, às 18h30, em evento transmitido no facebook e youtube da Revista Literatas.

 

Quando Beira foi assolada pelos ventos de mais de 190 km/h e chuvas fortes que praticamente transformar a cidade num rio em velocidade furiosa, arrastando quase tudo, arrancando habitações e árvores, matando pessoas, certamente que uma das expressões mais usadas para explicar a situação foi o “dilúvio”. O escritor Bento Baloi encontrou nesse cenário de total catástrofe razões para construir uma “arca” cheia de estórias, porque alguém precisa contar, mas que em tom de místico, o que se passou “naquele tempo”, quase a lembrar-nos as escrituras, sem tirar o deleite que a ficção, mesmo que em jeito de crónica, roçando estórias vividas, experienciadas, às vezes de rir para não chorar, ou mesmo para rebuscar o diário inusitado dos nossos hábitos ou costumes.

Mas voltemos ao princípio, ao que nos faz chegar a este “Arca de Não É” que assim se explica pela voz do autor: “Cheguei à Sofala alguns dias depois da catástrofe. Encontrei um povo de joelhos, cheio de hematomas, mas resistindo a afogar-se nas próprias lágrimas. Gente de fibra que acabava de tomar um duro golpe nos rins, mas que teimava em esboçar um olhar de esperança de txungamoyo em txungamoyo (…). Esta é uma homenagem às centenas de homens, mulheres e crianças que sucumbiram. Aos milhões de homens, mulheres e crianças que resistiram. Aos homens, mulheres e crianças deste país que acreditam que, enquanto o sol raiar, o sorriso ainda é possível.”

“Arca de Não É” que sai sob a chancela da editora Índico, reúne 15 crónicas publicadas anteriormente, de forma esparsa, no jornal O País. Aborda na generalidade situações e temas sobre a magnitude das desgraças causadas pelo ciclone Idai, na Beira, 2019. Partindo de um fenómeno natural, o escritor recria universos trágicos, porém importantes na preservação da memória colectiva, que transcendem o regional, provocando reflexões sobre questões ambientais e ameaças globais, como homenagem aos que morreram ou perderam entes queridos no centro do país. 

O editor de Cultura d’O País, José dos Remédios dá um testemunho no livro, ele que foi lendo os textos enquanto publicava no jornal e refere-se ao retrato de uma “realidade atroz, cheia de desespero” e analisa que “Concorre para o efeito uma escrita intrigante, verosímil e absolutamente acutilante. Logo, desde o primeiro texto, ‘Jail house’ até ao último, ‘A Arca de Não É’, Baloi dá-nos a magnitude das desgraças causadas pelo ciclone Idai, no Centro do país, em Março de 2019”.

“Arca de Não É” é o segundo livro de Bento Baloi e é lançado nesta quinta-feira, 8 de Abril, às 18h30, em evento transmitido para as redes sociais, nomeadamente, do Centro Cultural Brasil-Moçambique, no facebook e youtube da Revista Literatas. A professora, ensaísta e poetisa Ana Mafalda Leite e a poetisa cabo-verdiana Vera Duarte Pina serão farão parte do evento com leituras à obra.  

Bento Balói nasceu em 1968 no bairro de Maxaquene, em Maputo, onde viveu até à maioridade.
Desde os finais dos anos 80 que publica artigos literários em páginas de especialidade de jornais e revistas moçambicanos. Escreveu, dirigiu e interpretou papéis em diversas peças de teatro, tanto de palco como radiofónico. Escreveu dois bailados e um livro sobre as primeiras eleições gerais multipartidárias na história de Moçambique. Em 2016 publicou sua primeira obra literária, o romance “Recados da Alma” que foi reeditado em Portugal em 2018

 

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