A grande entrevista que ninguém vai ler: o horizonte como abismo

A grande entrevista que ninguém vai ler: o horizonte como abismo

Depois de colocarmos a 25 escritores lusófonos e a outros tantos da África anglófona o abismo aos pés, eis-nos também diante dele (do abismo). Tiramos a armadura de jornalistas, de quem se escuda nas perguntas para não se putrefazer neste acto de responder ele mesmo sobre as angústias que lhe marcam, deixando a alma a nu. São interpelações ao que nos disseram os autores, mas também a nossa visão sobre algumas perguntas que pedimos que nos respondessem. E não deixamos aqui, no bom dizer de Olavo Bilac, de mostrar os andaimes do edifício para a construção do livro. São devaneios de dois jornalistas, que também interpelam um ao outro, depois de juntos terem interpelado a outros tantos. As respostas são longas, como são longas as noites em que a incerteza e o medo nos fazem companhia. 

 

Elton Pila: Começamos esta série, enquanto estávamos ainda a tactear estes tempos pandémicos. Esta série foi também uma espécie de perscrutar o estado de alma dos escritores, que era também um pouco do estado de alma do mundo face ao estranho mundo novo que se abria. Achas que conseguimos evitar que o mundo se “asfixiasse na depressão e no confinamento”, como escreveste na nota de fecho que assinas?

 

Eduardo Quive: Tempos loucos estes. Ou morríamos pelo vírus ou morríamos tentando escapar dele. Aqui o dilema era sobretudo esse, mas sem nos acobardarmos. No nosso meio a maior depressão foi da fome iminente todos os dias, os artistas que sempre foram trabalhadores precários na sua maioria, tiveram e ainda têm dias difíceis por conta deste coronavírus. Mas houve outra forma de nos asfixiarmos. O vírus afectou grandemente as nossas relações humanas, isso percebe-se. A nossa reação ao medo, que na maioria não era da morte, mas da fome – diz-se que nós os africanos morremos quase todos os dias, pelas difíceis condições sociais em que vivemos – e das dificuldades por falta de trabalho remunerado, fez com que se colocasse o dinheiro acima de tudo. E não percebemos que a máxima “tempo é dinheiro” já não se aplica nestes tempos. Temos muito tempo e dinheiro nenhum, tínhamos é que perceber que mais do que nunca, trabalhar juntos, solidariamente juntos, tentar erguer grandes “infra-estruturas” artísticas, baseadas no trabalho colaborativo, como se fosse a última oportunidade para fazermos grandes obras. Mas não, acabou vencendo o vírus da desumanização, como temia o escritor Lucílio Manjate em resposta sobre o que seria pior que o que vivemos hoje. Contudo, temos aqui a alma dos escritores como nunca a tivemos, nos seus livros, nos saraus e encontros literários por exemplo. Aqui os escritores falam do medo, da vida e da coragem. Acho que de certa forma, acabaram por nos salvar de alguma depressão e nos ajudarão, com a sua honestidade, a curar os males da alma.

 

O exercício do jornalismo cultural coloca-nos todos dias em contacto com diferentes criadores e artistas. Porque perguntar aos escritores sobre o caos, o medo e o fim?

 

Elton Pila: Louise Gluck, que é Nobel da Literatura, não que isto confira legitimidade ao que ela diz ou escreve, mas é um prémio, ainda que um prémio como Nobel seja sempre político, mas qual prémio não é, se assumirmos que tudo é política?... Enfim, Louise Gluck disse algo mais ou menos assim: “é difícil para a Literatura encontrar o mundo em flagrante”. Nesta frase, percebo a ideia de processo pelo qual o labor literário passa, para os prosadores talvez ainda mais complexo do que para os poetas, é só ver como as guerras de resistência, os impérios, a guerra de libertação e a guerra civil continuam a marcar os romances que tem estado a ser produzidos ainda hoje. É como se os autores tivessem de marcar esta distância para que pudessem reflectir sobre estas épocas, estes momentos. Colocamos os escritores a pensar nisso como uma primeira luz para estes tempos pandémicos; enquanto uma obra maior se demora, provocá-los a pensar o presente no presente. A Música está mais habituada ao presente, é só olhar para a quantidade de músicas que foram lançadas até como uma arma de combate ao vírus, poucas bem conseguidas, outras nem tanto muito por conta desta pressa para encontrar o mundo em flagrante; o Cinema e o Teatro (não enquanto grandes Artes) também tiveram ali a sua vez em materiais didácticos e informativos; a Fotografia e as Artes Plásticas também já se habituaram a flagrar os momentos. Mas a Literatura não muitas vezes, então a ideia era instigar os escritores a pensarem o presente.

 

As perguntas repetem-se ao longo das páginas do livro. Porque colocar as mesmas perguntas a 25 escritores? Será falta de criatividade para criar novas perguntas em meio ao caos?

 

Eduardo Quive: A ideia de questionários de Proust sempre pareceu-me uma reclusão. Pensar que enquanto perguntadores não pensamos. Criamos modelos, tal como os sistemas em que estamos encurralados fazem, metemos todo mundo lá e só permitimos um caminho de pensamento. Mas a repetição é o que me fascina nisto tudo, repetir, sem ser redundante, porque cada resposta é uma montanha russa de sensações e emoções. Mas também o contexto. A ideia era gerar uma onda de pensamentos, uma reflexão a sério sobre a vida. Custou-nos foi colocar o dedo na ferida e perguntá-los de forma directa: o que é a vida? Mas a ideia fundamental está aí assente. Definir a vida de forma tão insistente quanto repetente em como perguntamos, tal como o desafio que nos coloca o jornalismo, de sempre tentar chegar a verdade, ao âmago, sendo muitas vezes necessário encontrar outras formas de fazer a mesma pergunta. Contudo devo dizer que os escritores tornaram isto num excelente livro para a genuflexão perante o “admirável mundo novo” que estamos a viver como se não fôssemos nós a construí-lo. Uma coisa curiosa, li as respostas destes escritores sem ler as perguntas, várias vezes, deu-me a sensação de um grande monólogo existencialista.

 

São 25 escritores nesta obra. Como se chegou a eles? Há alguma relação especial exactamente como este grupo de escritores ou o assunto é que fez chegar até eles?

 

Elton Pila: Esta é a pergunta de um milhão. A porta de entrada para a polémica. Mas na introdução de cada uma das entrevistas como que justificamos o porquê destes escritores terem sido chamados. De alguma forma estes escritores já reflectiam estas temáticas que as perguntas sugerem nos livros e textos que escreveram. Se toda a literatura tem alguma coisa de confessional, este livro coloca-os em declarações mais pessoais, longe do terreno movediço que é a ficção. É só pensarmos nas respostas do Pedro Pereira Lopes, por exemplo. Responder a estas perguntas foi também um acto de coragem por parte dos autores, é como se lhes tocássemos ao mais fundo da existência, as feridas da alma, confrontando-lhos com esta imagem que é a vida a esvair-se entre os dedos como estes tempos nos sugerem. Não é esta uma lista dos maiores pensadores do fim, mas uma colectânea de entrevistas a escritores que nos pudessem ajudar a reflectir sobre a iminência do fim.

 

Como os criadores do modelo de perguntas, escapamos de reflectir um pouco sobre estes dias do fim. Agora, sem as armaduras de jornalistas, podemos fazê-lo. O fim há-de ser o mais triste da vida?

 

Eduardo Quive: Há-de ser o mais fácil da vida, disso tenho a certeza. É o fim, é mais fácil que começar, que estruturar, desenvolver. Nós sabemos como é difícil a vida, o dia-a-dia, ter de trabalhar para sobreviver, muitas vezes sem prazer nenhum, sem sentimento nenhum com o mundo à nossa volta. Veja-se o Eduardo White como nos pôde mostrar no poema “o que vocês não sabem e nem imaginam”: “vocês não sabem / mas todas as manhãs me preparo / para ser, de novo, aquele homem. / arrumo as aflições, as carências, / as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir, (…) / todas as manhãs tudo se repete. / O poeta Eduardo White se despede de mim / à porta de casa, (…) me lembra o pão que devo trazer,(…).” Essa é a realidade de muitos de nós, temos que nos despir de quem amamos ser, de quem gostaríamos de ser, para ser um personagem para o filme trágico da vida, em que nos vamos entretendo com a ilusão de contas pagas e de mais algumas coisas que às vezes até nos fazem esquecer as pequenas lutas que fazem de nós mais do que isto que somos: utensílios de um ser invisível que ainda nos exige a gratidão por tudo e por nada. Acho que não respondi a tua pergunta. O que me coloca na condição de poder fazer de volta. O fim há-de ser o mais triste da vida?

 

Elton Pila: Lembro da crónica “A mulher esperando um homem” de Rubem Braga, em que conta também a história de uma mulher que viu o marido sair para a revolução húngara e que lhe disse para que não saísse antes que ele voltasse. Ela esperou, esperou e esperou, até que apareceu alguém a dizer que o marido morreu e só aí ela pôde sair. Vês, a morte também pode ser libertadora.

Neste ano de morte (perdemos tanta gente), soube da morte de uma ex-colega e também amiga: num dia como os outros chegou à casa, tomou banho, dormiu e nunca mais acordou. Não me importo de aceder ao portal de eternidade, como nos disse Ana Mafalda Leite, mas um fim como este não tem muito de triste, sobretudo para quem morre. Agora, ouvimos que foi encontrado um antigo delegado político da Renamo, com o corpo encoberto de folhas e sinais claros de tortura, um fim destes é triste para quem morre e para quem fica e para o Estado de Direito e Democrático (odioso chavão). A felicidade ou a tristeza do fim depende muito do que antecede.

Mas, acima de tudo, olho o fim, a morte, a que nos impõem, a que nos impusemos ou aqui a nossa natureza de seres humanos - com prazo de validade - nos impõe como o cumprimento de uma sorte que já nos vêm inscrita na testa logo que nascemos. Não há muito o que inventar. Talvez também não tenha respondido a pergunta. Mas podemos passar para outra.

 

Um livro como este num país com os níveis de leitura como o nosso para quem é afinal?

 

Eduardo Quive: É exactamente para quem não lê. Finalmente. Muitas vezes pensamos a escrita para os “leitores”. Aqueles que compreendem ou tem o gosto em descodificar a linguagem literária, a poesia, a ficção. E há uma maioria natural que não faz parte disso, nem do rótulo por nós colocado sobre quem é o leitor, nem dos que a priori vão a livraria ou a bibliotecas a procura de livros. Este livro finalmente é para quem não faz parte do “sistema”. Quem não se proclama “leitor”. Quem não gosta, não conhece e nem compreende a ficção nos moldes do texto literário. Para quem seria um livro de entrevistas fora do padrão? Para escritores? Para teóricos? Para leitores vorazes, fascinados pelo texto que até se perdem na ironia, no amor e na confusão do dia-a-dia? Eu entendo este livro como o descer à terra por quem anda sempre fora da órbita. Um livro em que os rostos não se mostram. Em que as linhagens, as escolas literárias não se enquadram. Aqui o homem e a mulher assumiram o lugar de escritores e escritoras. Então deverá ser um livro para quem é apaixonado pela ficção na ideia de ver o escritor despido do seu poder criativo e para quem nem é um leitor habitual, para ver o mundo que ele vive, sem magias, antes transcrito com a sensibilidade que muito nos falta.

 

Pelas respostas dos autores, parece que há um novo mundo que se nos abre. É como se acordássemos para uma realidade impensável para a profissão do escritor. Como analisas as respostas dadas pelos escritores sobre que verdades escreveriam? Há verdade nisso?

 

Elton Pila: Nunca vivemos num tempo em que a verdade é tão subjectiva como este. Talvez não falemos de verdade no singular e falemos de verdades no plural, cada um tem a sua (não é aqui onde os factos alternativos encontram terreno fértil?) e a diversidade de respostas a essa pergunta mostra um pouco disto. Gosto de pensar nas respostas como os blocos que fazem o edifício criativo dos autores aqui entrevistados. Já havia feito notar isto no texto que introduz as perguntas ao Mauro Brito, que diz uma coisa como “se não tivesse que fingir, escreveria sobre o medo…”, esta resposta já nos faz perceber como ele encara a Literatura, como a antítese da realidade, a Literatura como um espaço de construção de sonhos que a realidade nos nega. Jeferson Tenório diz-nos que a “Literatura não é verdade, mas  intui a verdade”, eu vejo nesta resposta também a ideia de Literatura como a que antevê o futuro, não há-de ser por isso que hoje livros como “A Peste” de Camus e “A Revolta dos bichos” de Orwell viraram best-sellers, com tudo o que de odioso  chegar a esta categoria exige? Mas o grosso das respostas ainda que diversificadas vão para o mesmo caminho do não fingimento. E aqui voltamos a ideia de toda a literatura ter um quê de confessional, como também ouvimos nas páginas do livro, “é impossível não escrever sobre o que a vida nos põem dentro”. São as verdades de quem as diz.

 

As perguntas deste modelo quase que sugerem a forma como nós encaramos a vida, há um quê de sombrio, de incompreensão destes tempos, mas também da vida, como se a vida fosse uma causa perdida. Mas os autores aqui entrevistados tentaram contrariar isso, como se quisessem fazer luz ao mundo. As respostas te levaram/levam a pensar que a vida não seja uma causa perdida?

 

Eduardo Quive: Feita essa pergunta ao poeta Guita Jr., em meio a divagações, num exercício de reflexão mais amplo, chegou a dizer “Será que vamos vivendo e morrendo e reencarnando e vivendo e morrendo e voltando a reencarnar… (…)”. Eu, sinceramente, não sei o que dizer sobre isso. Há várias causas perdidas, perdemos todos os dias e nem por isso, desde que “acordamos vivos” há mais uma batalha que vamos travar e muitas vezes sem o botão com opção de derrota. Tudo isto para dizer que os escritores muito provavelmente tiveram vários momentos de silêncio nessa pergunta. E em vários casos, olharam para o mundo em que vivemos com mais humanidade do que provavelmente esperávamos. E colocaram a responsabilidade em si mesmo, em nós todos: temos nós de fazer da vida uma causa ganha. Não ganha sob a derrota do outro. Mas ganha pelo outro.

 

Ter os escritores a falarem da beleza, tão fora das paisagens da sua mente, das suas ilusões e devaneios, como te pareceu? Refiro-me à pergunta se eles vêm a beleza no mundo, apesar do caos, das guerras, da violência, o terror e do horror que brota da nossa espécie? Pareceu-te uma última tentativa de salvar a nossa humanidade, mesmo a pensar no que colocamos como a iminência do fim do mundo?

 

Elton Pila: As perguntas são sombrias, são de quem já não acredita muito que a vida valha a pena. Acho que nas respostas os escritores vestiram o manto de vendedores de futuro, como que a dizerem que devemos continuar a caminhar e que talvez tenhamos uma sorte diferente ao virar da esquina. Os escritores fazem aqui as  vezes do iluminador de um espectáculo de Teatro, a fazerem-nos olhar para onde a cena decorre, como se estivéssemos tão imersos no caos e não conseguíssemos ver a beleza do mundo. Ana Mafalda Leite toca no cerne da questão: o mundo é tremendamente belo quanto é tremendamente feio, uma sintonia de contrários como ela disse. Chegamos então àquele lugar–comum, a luz só ilumina na escuridão.

 

Vês tu ainda alguma beleza no mundo?

Eduardo Quive: Vejo beleza em tudo isto. Vivo agora num lugar calmo, verde, bastante musicado com sons de pássaros de diferentes tipos, os cheiros à natureza aqui são autênticos, ainda, pois sei que tudo isto daqui a pouco não passará de uma ilusão. E exactamente a esta hora que trocamos esta correspondência, vejo a lua disputando espaço, lá no céu, com as nuvens, ora encontrando espaços vazios, ora tendo de iluminar em máximo esforço com as manchas pretas daquele vapor. E olho para o horizonte da minha janela, há um extenso verde do capim que por cima tem flores brancas… Fico a pensar nisto tudo, mais as amizades corajosas que tenho que me permitem o espanto da vida no dia-a-dia. Em como nos batemos com as coisas, sangrando, mas sem morrer e nem feridos de morte. Lembro-me, agora, da fotografia, vencedora de Word Press Photo 2019, de uma criança das Honduras chamada Yanela Sanchez, que chora enquanto a sua mãe, Sandra Sanchez, é revistada por um guarda fronteira norte-americano. Disse a Sandra que viajavam por um mês pela América Central tentando chegar aos EUA. E ali adivinhava-se o fim do “sonho americano”. A fotografia de John Moore, que eternizou esse momento avassalador da nossa humanidade, correu o mundo e foi base, digamos assim, para uma série de protestos que fizeram Trump recuar na política de separação de pais e filhos que violassem as fronteiras americanas. Não está aí a beleza do mundo? O homem pode construir e destruir, e construir novamente, se for melhor do que a primeira vez, ainda bem. Aí toca-me em particular o que nos disse Mário Forjaz Secca na sua entrevista: “No meio da maior miséria existe sempre uma flor que nasce. Perante acontecimentos difíceis existem sempre duas opções, ou somos esteticamente pessimistas, ou somos esteticamente optimistas.”

 

Perguntamos aos autores sobre músicas, filmes, livros por consumir para enganar o tempo ou para namorá-lo. Na sua maioria pareciam escolhas de tempos normais. Parece-te sensato enquanto as notícias são devastadoras sobre o mundo, sentar-se e ver um filme, ouvir um Ray Charles ou Michael Jackson ou ainda ler “Crónica de uma morte anunciada”?

 

Elton Pila: Ray Charles é dos músicos favoritos da escritora Paulina Chiziane. Na entrevista que a fizemos para a L-Exclusiva (um projecto que teve pernas curtas e que mostrou o quão é difícil a sustentabilidade para projectos culturais neste país), lembro dela ter-nos contando que enquanto estava a braços com a loucura teria visto um espectáculo de Ray Charles no grande palco que se ergueu no seu quintal. Este é um tempo de loucos e ouvir Ray Charles pode ser o maior sinal de que estamos em consonância com o tempo.

Ouvir Michael Jackson, como Sara Jona nos disse sobre a música "heal the world", talvez evitasse muito do que está a acontecer hoje. De MJ há também "hold my hand", que fez com o senegalês Akon, que é sobre esperança e nunca precisamos tanto de esperança como nestes tempos; em “Smooth Criminal” em que aprendemos o moonwalker, o passo que deu dignidade ao andar para trás, num mundo que nos ensinou a ser buldozzers a esmagar tudo para irmos para frente, ouvimo-lo preocupado com a Annie e nos faz pensar na Anne Frank, a menina que nos deu um dos mais dramáticos relatos do Nazismo. Falaste de Trump, que é também um “smooth criminal”, com as fronteiras fechadas, o discurso xenófobo e umbiguista que se mostra em "make América Great again", que fabricaram as novas Annes Franks; Yanela Sanchez é uma delas.

Os Governos tem a mania de se fazer um pouco de Deus, a definirem a hora que deve ser o nosso fim. Quando tiram jovens da formação e atiram para o campo de guerra, não se pode dizer que a morte não nos foi anunciada. Quando não se toma uma posição firme sabendo que uma nova estirpe do coronavírus está na África do Sol não nos está a ser anunciada a nossa morte? Mas se fizermos todos a vez daquele pai em "A vida é bela" talvez saiamos vivos deste caos.

 

Esta conversa já vai longa. Mas ainda sobra espaço para pensarmos nestes tempos em que o mundo se começa a abrir. O mundo não acabou ou continua a caminhar para o abismo?

 

Eduardo Quive: O abismo está sempre a morder-nos os calcanhares. É o abismo aos pés, como nos sugere o título do livro. Todos os dias o mundo acaba e recomeça, infelizmente sem ter aprendido dos dramas por nós. Ocorre-me agora uma das nossas crenças de que a cobra verde trás sorte. E num livro com o título “Os olhos da cobra verde” a nossa grande contista, Lília Momplé escreve um conto com o título Xirove, que o nosso amigo, o promissor actor e dramaturgo Venâncio Calisto encenou já lá vão mais de seis anos… Xirove fala das reminiscências da guerra dos 16 anos cujos machados tardam a enterrar-se, num ritual de reintegração de um ex-guerrilheiro da Renamo. A comunidade onde muitas vidas foram levadas por essa guerra sem culpados. Como aceitá-lo de volta ao convívio, assim normalmente como se nada tivesse acontecido? Elvira Viegas cantara em “Xikala Vito" perguntando a um outro combatente num bom xi-ronga, o que traduzo aqui, literalmente: “como é que vou brincar contigo, se com os meus seios fizeste um guisado?” e Roberto Chitsondzo, no seu “Kwiri” musicou um poema de Leite de Vasconcelos em que declara: “custa fazer/dizer amor”. Tudo isto é a arte e os artistas a apelar à nossa memória. Mas parece-me que é em “letra morta". Ninguém ouve. Caímos no mesmo abismo que acabamos de nos retirar. Mbate Pedro diz num dos seus poemas em “Debaixo do silêncio que arde" “porque não nos matam de vez/ preferem nos matar de quando em vez”. Penso muito nisso também. Mas não será que sejamos felizes no meio a tudo isto e não sabemos, como nos sugere um dos autores por nós entrevistado?

 

Colocamos o desafio para que os autores deixassem uma palavra para as futuras gerações, cientes que não seremos nós. Mas tivemos a felicidade de ler essas palavras. Sinceramente acho que é o grande achado deste livro. Um testamento original dos nossos autores, que não legam ao mundo “novo” nada mais do que a sua espiritualidade, sem materialismos. O que te parecem? E agora qual é que replicavas ou recriavas para as futuras gerações?

 

Elton Pila: Acho que facilitamos o trabalho aos que se dedicam a compilar e reproduzir frases de efeito. Tão em moda neste tempo de falsos leitores e ainda mais falsos intelectuais. Há grandes frases neste livro. Nas respostas às últimas perguntas, principalmente. O que sobressai de todas elas é que falhámos e continuamos a falhar como humanidade, desde a nossa relação com o mundo até com os outros que fazem o mundo. Os escritores colocaram-nos isto aos olhos, mas sem o didactismo castrante. A frase “comemos o pangolim, não recomendo” seria engraçada se não fosse trágica. Ainda mais para nós, para quem o pangolim também simboliza sorte. Lembro-me agora de uma frase que um actor brasileiro nos deixou pouco antes do suicídio. “Falhámos como humanidade”. Não há muito mais a acrescentar.  

 

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