O alguidar que chora ou a história das pedras que falam: romper o silêncio

O alguidar que chora ou a história das pedras que falam: romper o silêncio

Não era ainda o espectáculo, que só chega em Dezembro, mas um iluminar aos bastidores antes de a cortina ser aberta. “O alguidar que chora ou a história das pedras que falam”, que marca o regresso de Venâncio Calisto à dramaturgia e encenação, desta vez em terras portuguesas, nos coloca a olhar, outra vez, as lutas entre opressores e oprimidos.  

 

Uma mulher percorre a infinita extensão dos séculos à busca de desenterrar e ou reinventar a história das pedras que falam. A mulher é uma metáfora, o arquétipo da opressão humana, uma heroína que busca o lugar perdido, o lugar de respeito e celebração das diferenças. A partir da revisitação da prática de moer o milho no alguidar, uma das principais tarefas domésticas das mulheres moçambicanas, propõe-se uma narrativa dramática ao ritmo da prosa poética que explora as infinitas histórias e vozes que precisam de romper a muralha secular do silêncio para que possam ser ouvidas.

 

Não é a primeira vez que sabemos que Venâncio Calisto quer romper a muralha do silêncio, como se propõe neste trabalho que ainda progride, mas que foi já apresentado na Casa Mocambo, em Lisboa, Portugal. Já o havíamos visto nestas águas em “(Des)mascarados”, um espectáculo-confronto, a opor um homem e uma mulher, que pode ser visto sobre diversas bandeiras, mas à luz do contexto actual, em que, um pouco por todo mundo, os movimentos feministas – com eles as mulheres - ganham força, não é difícil olha-la - colado a ideia da luta do género, a colocar-nos a ver uma mulher  que nega as algemas dos rótulos, um convite a luta para se desvincilhar dos códigos de conduta impostos pelos papeis sociais. Mas mais para trás também havia feito “A Mãe”, escrita por Bertolt Brecht a partir do romance de Máximo Gorki, com as regras e as dores do capitalismo a correrem em fundo, de forma permanente, em intensa meia-hora, a dar voz a operários que se viam no desespero de perder parte do salário. É, na verdade, outro espectáculo-confronto entre os operários e os donos do capital que se acham donos da vida dos operários.

 

Mas talvez nos seja mais fácil associar esteo alguidar que chora ou a história das pedras que falam” com “Qual é a sentença? – a mulher que matou a diferença”, um espectáculo profundamente físico que o título já diz ao que vai, que começou a impor Venâncio Calisto como um artista pós-dramático.

 

Como percebemos na sinopse que nos fez o primeiro parágrafo, Venâncio regressa agora a esta luta de classes, com a mulher-metáfora como porta-estandarte. “O mundo é marcado pela luta de classes, a luta entre os opressores e oprimidos. Não é só um paradigma do nosso tempo, é uma questão humana, faz parte da nossa condição existencial.”, diz-nos o encenador numa conversa pelo WhatsApp.

 

Neste espectáculo, que se vai apresentar ao público na primeira quinzena de Dezembro, também Venâncio procura compreender esse conflito e propor alternativas para o que chama de querela estúpida. “Somos todos Homens e a ética humana passa por um reconhecimento horizontal e uma relação de amor entre todos”.

 

Quando se regista uma escalada de extremismos mundo a fora, pensa que a função da arte – “se é que a arte tem alguma função” - é a de por em questão todos extremismo e nos chamar a razão do ser.

 

Este espectáculo juntou o encenador e dramaturgo a Marina Campanetti e Marisa Bimbo. Juntos andaram trancados na Casa Mocambo, em residência artística, desde o mês de Julho. “Este projecto simboliza celebra o encontro entre três artistas e pessoas de países e culturas diferentes, que ainda acreditam que a vida é um acto de comunhão e troca recíproca”.

 

Com Marisa Bimbo, a actriz que andou por Moçambique por alguns anos e que vimos em palco algumas vezes e de quem sentimos também alguma saudade, o encenador – com Yuck Miranda e Eunice Mandlate - já havia feito “A Crise”, um espectáculo de vozes que são uma tentativa de colocar a rolha no rio da humanidade que parece evaporar.

 

O texto deste espectáculo - o alguidar que chora ou a história das pedras que falam” -  que estreia na primeira quinzena de Dezembro, na sala Estúdio do Teatro da Rainha, vai ser editado e lançado em livro.

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