Melita Matsinhe: Há que “colocar o dedo naquilo que nos inquieta como país”

Melita Matsinhe: Há que “colocar o dedo naquilo que nos inquieta como país”

A Covid-19 tornou-se um inimigo comum. Enquanto durar a crise por si criada, o mundo artístico estará comprometido, sendo, dentre outras coisas, uma inquietação global. Entretanto, como explica Amélia Matsinhe, inquietar-se, diante do mau estado das coisas é das principais funções do trabalho artístico.

 

Melita Matsinhe, como é artisticamente conhecida, manteve uma conversa com a LITERATAS. É pianista, poeta, declamadora e professora. Fundou e dirige, desde 2017, a Xiluva Artes, uma instituição dedicada ao ensino artístico, mais virado para crianças.

 

Ainda assim, há um ponto de partida. Melita Matsinhe é mais conhecida como pianista. O teclado e a voz fazem-na voar mais alto. Com o auxílio do seu piano, também ocupa-se na declamação de poesia. E há mais subsídios: faz música clássica, uma paixão desenvolvida ainda criança através da igreja, família e rádio.

 

Melita Matsinhe aposta na África, que soa na sua música e poesia. Quando viveu, por 10 anos, na Noruega, transformou a saudade em matéria-prima para a sua música. Também procurou por elementos da identidade moçambicana na música de Funny Pfumo, no período após a Independência de Moçambique (1976 a 1986), no seu trabalho de final de curso, Licenciatura em História, na Universidade Eduardo Mondlane.

 

Em 2017, Melita Matsinhe lançou a sua primeira colecção de poemas, sob a chancela da Fundação Fernando Leite Couto. Chamou-a “Ignição de sonhos”. Mais recentemente, escreveu “Palavras em fuga”, onde há outro detalhe por destacar: duas grandes vozes da literatura moçambicana passaram o seu pente fino, a pesquisadora e professora de literatura, Sara Jonas, e a poeta Ana Mafalda Leite. O livro sai sob a chancela da Xiluva Artes (que agora é também uma editora)

 

Entretanto, a pandemia do Coronavírus parou tudo. Inclusive, impediu-a de fazer um lançamento oficial, que devia ter acontecido no passado 15 de Março. “O coronavírus nos obrigou-nos a adiar o lançamento”, desabafa.

 

Mas, há mesmo males que vêm para o bem. É esta a ironia que conduz a compositora e poeta Melita Matsinhe. Foi assim que a mesma chegou à inovação. Para já, a ideia é lançar “Palavras em fuga”, no momento mais oportuno. O seu mais recente livro será publicado oficialmente quando a pandemia estiver controlada.

 

A artista, entretanto, já encontrou outras saídas. “Agora, estamos a trabalhar para tê-lo (Palavras em fuga), em formato digital. Também apostamos na venda por encomenda, ficando o lançamento para quando houver condições”, esclarece Melita Matsinhe, ao mesmo tempo que deixa ficar a sua principal mensagem: “tudo parou e temos que nos reinventar”.

 

A verdade é que tudo estava no seu ritmo normal, até que chegou a pandemia Covid-19. Entretanto, a paragem que a mesma trouxe, por mostrar-se uma ameaça à humanidade, não pode ser o fim da estrada. Ainda assim, sobre o futuro, em Melita Matsinhe, paira um mar de incertezas. “Não sei se depois disto voltaremos para onde estávamos ou se haverá retrocesso ou progresso”.

 

A reinvenção acima referida, no que diz respeito à produção e distribuição dos livros da Xiluva Artes, pode ser um dos caminhos para o futuro. Mas é, sem dúvidas, uma das soluções para o presente. Afinal, as pessoas podem ler, para sentir menos pesada a quarentena. Aliás, a própria Melita Matsinhe adoptou essa postura sedentária, para evitar a propagação do novo Coronavírus.

 

“Eu fiquei em quarentena 21 dias (7+14) e sempre assumo o role de quem não sabe se não tem a doença. Tomo todo o cuidado porque não quero que os meus sofram. Por isso eu aguento. Por mim e pelos demais. Aguento também porque tenho oportunidade de guiar cada um dos meus passos”, disse Melita.

 

Segundo Melita Matsinhe, a crise causada pelo novo Coronavírus leva a reflectir, mais do que nunca, sobre a verdadeira função da arte, que deve questionar, continuamente. Inquietar-se, porque está claro que “não são estes tempos normais”. “A arte, mais do que entreter (que esse não é o seu papel), deve criar a inquietação, a reflexão e a busca de novos caminhos”, esclarece Melita Matsinhe

 

Melita Matsinhe ainda disse à LIETARATAS, que a matéria-prima do artista está naquilo que inquieta a sociedade. “Devemos ser o exemplo de cuidar e proteger, agentes activos da mudança, mas acima de tudo, criadores da inquietação. Na verdade, o que inquieta está ali. Alguém pode destapar, colocar o dedo naquilo que nos inquieta como país”.

 

 

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