Maria Clotilde: Estamos desempregados

Maria Clotilde: Estamos desempregados

Quando a Covid-19 chegou, o teatro estava mais sólido. Sobretudo, rejuvenescido. A mulher, neste processo, em constante emancipação. Entretanto, a pandemia quebrou este ritmo e, de certa forma, colocou o artista numa situação crítica. Esta é uma das interpretações à actriz e encenadora, Maria Clotilde, em entrevista à LITERATAS.

 

Maria Clotilde Guirrugo é uma actriz abnegada. É por aí que também encena. Encontra-se, neste momento, a dirigir a companhia de teatro Hanya Artes, sem contar que é uma das beneficiárias da evolução desta arte cénica em Moçambique, afinal, é licenciada em Teatro, pela Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade Eduardo Mondlane (UEM).

 

Maria Clotilde fez parte de alguns filmes, como “O Murro da Vida”, de António Machaieie. Participou de “Maputo nakurandza”, da brasileira Anadine Zampaulo e “Mosquito”, do português João Nuno Pinto. Participou em mais de 20 peças de teatro, em Moçambique e no estrangeiro. Pode destacar-se, dentre outras, que elencou “Noite das hienas”, uma peça encenada pelo português Fernando Moura Ramos (Teatro da Rainha – Lisboa).

 

A Covid-19 cancelou-lhe “Os Monólogos da Vagina” – escrito pela autora norte-americana Eve Ensler, espectáculo que dirige, pela Hanya Artes. Estreada em 2019, a peça seria apresentada a 25 de Março passado. Também, a 7 de Abril, no Centro Cultural Franco-Moçambicano. Em ambas ocasiões, pretendia celebrar as mulheres, em dose dupla.

 

Do mesmo modo, a pandemia que surge na China, impediu a aterragem d“Os Monólogos da Vagina”, na cidade da Beira, onde o Coronavírus é outro desastre, depois do ciclone “Idai”. O espectáculo seria apresentado nos finais de Março. Constava da programação do também cancelado Festival do Livro Infantil, da Kulemba Artes. A mesma pandemia coloca em dúvida a reposição d“A Revolta dos Instrumentos”, com os TB50, e a estreia d“Os saltimbancos”.

 

Maria Clotilde, ainda assim, continua com os olhos fixos no teatro. No palco, procura por uma solução para a crise sanitária global, que se assiste. Para ela, a mulher artista está empenhada nesta nova guerra. “Estamos nos trilhos, a andar, lentas ou rápidas”, diz diante da cortina encerrada por uma pandemia sem precedentes. “É um chumbo grosso no peito, não só para as mulheres, mas para os artistas, no geral”.

 

As mulheres no teatro, explica Maria Clotilde, estão cada vez mais emancipadas. “Estamos mais envolvidas. Nos séculos passados, a mulher não era digna dos palcos. Inclusive, os homens é que faziam papéis femininos. Elas eram muito protegidas. Hoje em dia, nós somos as protagonistas”, disse Maria Clotilde.

 

A actriz e encenadora, em declarações ao LITERATAS, disse que está ciente que a mulher artista ainda tem muita estrada por percorrer. “O caminho é único. Devemos nos colocarmos melhores, profissionalmente. Podemos expressar da melhor forma o que sabemos”.

 

Nesta emancipação, segundo Maria Clotilde, há exemplos a serem seguidos. É o caso, no teatro, de Manuela Soeiro, fundadora do Mutumbela Gogo e directora do Teatro Avenida. Da Kwanja Zawares, da companhia de teatro “Mitsu”. Ou, de tantos outros exemplos, da actriz e professora de teatro, Josefina Massango, que foi directora do curso de Teatro na ECA. “Temos, cada dia, muitas mais mulheres em cena, como actrizes e directoras”, considera.

 

Nessa lógica, “as mulheres dominarão o mundo”, conforme diz Maria Clotilde. “O caminho a seguir é esse. Ser cada vez melhor. Superar a sua própria sabedoria. Testar os seus próprios limites, sem guerrilhas desnecessárias”. Entretanto, para Maria Clotilde, há que centrar esforços para o actual inimigo comum da humanidade, o novo Coronavírus. É em tempos de pandemia, que se percebe o real valor do teatro, que “para além de entreter, é também educativo e de sensibilização cívica”.

 

As limitações impostas pela quarentena, conforme explica Maria Clotilde, levam à inovação. É o lado bom deste tipo de crises. “Não podemos ir à rua, mas podemos chegar às casas do nosso público. Não presencialmente, mas virtualmente. Aliás, o mesmo já se faz na televisão”, destaca.

 

Maria Clotilde lembra que a crise causada pela pandemia do novo Coronavírus coloca muitos fazedores do teatro numa situação crítica. “Infelizmente, nós os artistas estamos desempregados. Mas, nem por isso, vamos nos dar por vencidos. Vamos arregaçar as mangas, trabalhar, reflectir e pôr em prática novas saídas”.

 

Importa referir que Maria Clotilde já está a inovar. Encontra-se a desenvolver “Live Artes & Conversas”. É um programa online, com um fim claro: “fazer chegar a arte às casas de cada um, sem precisar criar aglomerações”.

 

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