A história da lua

A história da lua

Havia a muito que o negro reinará, quando a lua existiu. O negro da noite era maço e calmo. Ocultava. O negro revigorava. Preenchia a concha dos dias na constância de sempre.

 

No princípio deus criou dois mundos. Um mundo sem astro que produz calor, e outro com astro que produz calor. No mundo com astro os homens nasciam pretos como carvão – queimavam na constância do dia. No mundo sem astro, os homens nasciam brancos como albinos. Porém, deus viu que não era bom separar espécies da mesma raça. Uniu os dois mundos e veio a existência único meio habitat humano – a terra. Era dia – luz. Noite - escura. O homem branco sentia se derrotado, pois os negros eram muitos – autentico berço da humanidade desde a génese das coisas. Cresceu uma margem de tumultos entre os homens; com os espermas das armas rebentavam com os céus, foi por aí que surgiram pequenos poros nos céus por onde escapavam fiapos de luz dos olhos de deus e os linguistas chamaram estrelas. Quando ficasse noite deus espreitava as manobras humanas que não eram tão boas; então, ajuntou as forças do seu olhar e criou uma luz grande para agradar ambas cores da raça humana – a lua. Adiante, era dia – luz. Noite – luzescura.

 

Nesse ínterim, deus arquitectou a lua para iluminar a terra. Na noite seguinte a lua erguera-se com um corte profundo como um C. Sofrerá um golpe do poder divino?

 

A luz perambulava em minúsculos fiapos entre sombras de árvores. Mais perambulava mais se cansava.

 

O homem negro perambulava nas costas da noite, hora que deus reservara para descansar, pois a escuridão o protegia de ser visto com olhos de deus. Daí em diante, deus sentia raiva do homem negro, no entanto, deus uniu-se ao homem branco e promoveu a escravidão como vingança a escuridão. Tinha, deus, poder sobrenatural que enfraqueceu o homem negro e fortificou o homem branco.

 

Antes, porém, com o peso da raiva deus se ajoelhou prostrando o rosto no chão e verteu muita lágrima, foi assim que nasceu mares e os rios. Com a força divina, o homem branco acorrentava o homem negro e se iam sobre as lágrimas de deus para o ocidente onde se sitiava o ângulo do seu mundo sem astros, antes de deus tê-los unidos. Cansado de maus tratos, o homem negro recorreu aos seus dotes; com a fé que lhe crescia acreditou no deus das árvores.

 

Esse foi o maior erro de deus, permitir que cada espécie tenha seu deus – disse-me a avó aumentando um ponto na história.

 

O homem negro quebrava os pés pelos joelhos como se com os pés não pudesse mais. Deitava aguardente. Aplaudia. Cuspia. Espalhava farinha branca. Cantava. Chamava pelos espíritos. Foi, no entanto, que houve um pacto entre o homem negro e as sombras das árvores; por isso que quando morre o homem negro é santo enterra-lo debaixo da sombra duma árvore; raramente se o coloca na cripta. O segredo do homem negro prende se na alma das chamas de fogo; nos surdino estalidos que se soltam da garganta das lenhas aos gritos que criam calor. Conforto. Beleza e paz; por isso que a cada cair profundo do sol, quando nasce a escuridão, as famílias se arredondam à volta da fogueira e apresentam seus filhos às chamas de fogo. É uma doutrina que se tornou hábito e costume passando de geração em geração.

 

Ninguém havia visto deus mesmo antes desta rivalidade entre as cores da raça humana, mas se diz que quando o homem branco enfraqueceu diante das magias praticadas pelo homem negro, deus se refugiou, não se sabe aonde.

 

Perdeu-se o controlo da lua, por isso que certas noites vem noutras distantes se oculta.

 

– Já está a dormitar? - Interveio a avó, vendo-me gotejar com o peso do sono, quase não o ouvira quando disse: – foi assim que tudo começou. Estava cansado. Comecei a me afastar da fogueira. Já era noite em clara, a lua nascera da noite grávida há muito.

 

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