Yuck Miranda: o teatro tem o poder de transformar, mas acima de tudo de provocar…

Yuck Miranda: o teatro tem o poder de transformar, mas acima de tudo de provocar…

Yuck Miranda aos 27 anos é um actor que se afirma de forma visível no cenário teatral nacional. Um actor e performer que faz do seu corpo um instrumento de expressão nas mais variadas formas de representação, sendo a tragédia seu auge. Em palco, não sabe ser discreto, seu empenho em cada personagem, seja em papéis de alta exigência dramática e emotiva, ou na comédia, onde fazer rir, mesmo quando não é intenção, se torna incontornável, Yuck encara cada personagem como uma experiência de vida irrepetível.

 

Para conhecer as razões que movem a forma de ser e estar de um actor deste nível e com muito ainda por mostrar em palco, começamos do “começo”. Quem ele é? Que histórias e estórias de infância carrega, quais são as suas dores ou alegrias, porque passou para perceber que a vida só faz sentido em palco, deixando o corpo falar, o que só com palavras seria vazio. Ele que define o teatro como vida, e o seu corpo como uma arma, seria o palco, um lugar inevitável de existência, uma totalidade nesta cadeia que se chama destino? Seja como for, para Yuck não existe representação, existem vivências, cada papel uma vida, cada lágrima uma dor vivida, cada expressão, um sentimento por partilhar como quem procura ver o teatro sem imaginar que ali, está um homem que se esmera por ser original, enquanto resolve os seus conflitos interiores.

 

Descrever um actor de teatro, que leva o teatro como vida e vive-o intensamente, como um diário escrito em outdoors, será sempre um exercício vazio e arrisca-se a um monólogo do nada. Por isso, ficam aqui só apenas as perguntas necessárias para que o leitor veja e oiça o Yuck Miranda em vídeo no nosso canal.

 

Como revive a sua infância hoje e que memórias tem dela?

Fui uma criança esquisita. Não tinha muitos amigos, era única criança em casa nessa altura. Fui muito de viver uma infância solitude, não diria solidão, por isso era esquisito. Era muito ligado à televisão, era uma coisa que me encantava e é algo que me diz muito até hoje. A televisão foi um grande momento da minha conexão com a arte, porque queria ver concertos de jazz, música clássica, circo, música tradicional, indígena, passava muita coisa na televisão, incluindo documentários, e isso me encantava. Quando vou para o ensino primário e era um externato, tinha que ficar lá o dia inteiro, a conexão com a televisão foi quebrada e a minha prática da arte vem dessa altura, porque queria por em prática tudo o que vi na televisão. Então, a memória que tenho da infância é deste Yuck que tenta chegar a arte, tenta chegar ao teatro, música e à dança. Mas o teatro é a minha arte de expressão e onde me identifico mais.

 

Em 2010, começa a aparecer em palcos tradicionais da nossa arte. É aí onde a tua prática de teatro ganha horizontes mais sérios?

Nessa altura, fui trabalhar com uma companhia de teatro de relevo, como a Luarte. Eles comemoravam 10 anos e iam repor todas as peças que fizeram até essa altura. Fizeram-me um convite para participar dessas comemorações. Participei dessa ocasião e depois disso fui ficando com o grupo e fui fazendo outras peças e depois tornei-me membro do grupo. Aí começo a ver o caminho mais claro.

 

“Luarte proporcionou-me o actor, mas também o activista”

 

Ao entrar no grupo teatral “Luarte” qual foi o primeiro desafio que te foi colocado?

O Luarte já tinha um grande trabalho, tinha textos incríveis, uma dramaturgia muito boa. Então o Félix Mambucho convidou-me a fazer “Extractos de uma loucura emergente”, uma peça que tinham feito com outros actores, alguns deles o Félix Tinga e Nelson Mabui. Quando recebo o convite, para o meu espanto, porque os que já tinham feito eram actores de alto nível, e não me vejo em capacidade de fazer uma peça destas, fiquei com muito medo, mas aceitei. E, depois, ia contracenar com a Arlete, uma actriz fortíssima e super dramática, e se há uma coisa que eu mais admiro é a tragédia. Fiquei com medo, ia fazer um papel de um homem mais velho, com uma actriz mais velha e com muita bagagem, sendo que ninguém me conhecia, naquela altura lembro-me de ter sofrido muito com o texto também, que era muito forte. “Extracto de uma loucura emergente”, só para dar o histórico, é a história de um casal que perde o filho numa das greves que tivemos de subida do preço do pão em 2009, 2010 ou 2011 e este casal está cansado um do outro e acaba de ter esta perda. Era uma peça que discutia questões políticas, mas dentro da vida de um casal. Era assim uma curva dramática, mas também havia um conteúdo político. Recordo-me que na altura a peça foi quase proibida de passar. Fizemos uma temporada no Teatro Avenida, fomos à Beira, e quando voltamos tentamos repor a peça e chamaram-nos atenção que devíamos parar de fazer. Era muito forte e naquela altura foi um papel que consegui fazer e estive bem em palco, devia ter uns 19 anos de idade e a dizer as coisas que estava a dizer, algumas pessoas perguntavam-me se não tinha medo do que andava a dizer em palco. Acho que esta peça foi um dos grandes desafios que tive no Luarte. Ao mesmo tempo, sinto que se firmou em mim esse sentido de activismo. Sentia que era uma pessoa muito mais atenta a questões sociais e que o meu corpo podia ser usado para reclamar, dizer coisas, questionar, provocar, engajar. E era um corpo indignado que podia provocar outras indignações, penso que aí forma-se um activista dentro de mim. O Luarte proporcionou-me o actor, mas também o activista.

 

Quando é que começa o trabalho do actor?

Sempre pensei o teatro no seu todo. Sempre tive ambição de ser actor, mas nunca consegui pensar o trabalhar do actor só, mas como o teatro funciona no seu todo. Desde a direcção, os figurinos, cenários, produção, mesmo na infância já tinha esse sentido. Hoje diria que talvez me seria difícil trabalhar, porque não penso somente no trabalho do actor, mesmo quando há um director, um cenógrafo, quando construo o meu personagem também vou pensando na direcção, nas roupas, sou um actor que já vai ao ensaio com as roupas que acha que vão ficar bem àquele personagem. Claramente, sei respeitar o trabalho de cada um, mas sou um actor que pensa muito sobre a personagem e o espectáculo, diria que para mim é difícil hoje pensar só como actor.

 

A tragédia como uma paixão. Alguma razão específica?

A tragédia encanta-me por dois motivos: quando criança via muito filmes franceses. Aqueles tempos lentos, o texto, o chorar, a emoção, isso sempre me encantou. Há partes de mim que começam a fazer pontos com essa tragédia e há coisas que me fascinam na tragédia, tirando essa coisa dos tempos, mas começo a fazer pontes das minhas próprias vivências com a tragédia. E aí também começo a repensar nisso, quais são as minhas dores, começo reflectir uma dor em palco, o sofrimento, a angústia, onde é que vou buscar isso. Aí comecei a ir buscar isso nas minhas próprias vivências, que feridas carrego, que traumas, que podiam ser usados em palco. Então, acho que sou um actor que funciona bem na tragédia, porque consigo facilmente aceder às minhas próprias dores e feridas. Há quem diga que gosta de ver-me na comédia, também há gente que me acha versátil, mas sinto-me melhor na tragédia, embora também faça comédia, compreendo que são tempos diferentes e ritmos diferentes.

 

A sua entrada no Luarte foi o abrir de outras portas para o teatro profissional, conte-nos esse processo?

Recebi outros convites para trabalhar com outras companhias. Lembro-me de ter ido trabalhar com o Mahamba, grupo liderado por Maria Atália e Dadivo. A Maria Atália ia encenar uma peça de trabalho de defesa de fim do curso do Horácio Guiamba e convidou-me. O título de peça era “No Estaleiro Geral” de Luís Carlos Patraquim. Nessa altura foi um outro desafio. Trabalhar com Maria Atália foi fantástico, uma outra escola, idem com o Horácio. Era uma outra dinâmica que não tinha a ver com o que já tinha. Ela tem uma maneira peculiar de dirigir as suas peças, por exemplo, esta questão que falo da tragédia, a Maria Atália é tão boa em manipular a caixinha das emoções em cena. Ela conseguiu fazer isso comigo de forma minuciosa. Foram ensaios onde chorava muito, gostava da forma como trabalhávamos, começava a dominar também os tempos. Em que tempo eu choro, como as lágrimas caem, ela é também muito metódica na forma como dirige e isso permitiu-me uma outra escola. Depois fui trabalhar com Mbeu, com a Isabel Jorge que tinha um projecto para teatro infantil e fomos montando vários contos de escritores moçambicanos para o público infanto-juvenil, essa foi uma outra escola. Também já admirava Mbeu pelo seu trabalho, pela forma como os actores do Mbeu já representavam. A Isabel Jorge era encenadora e era interessante porque ela também é actriz, tinha que pensar tudo, então foi um outro casamento feito nessa altura. Mais tarde consigo ir trabalhar com uma das companhias de sonho para qualquer actor, o Mutumbela Gogo, que era para ir fazer a peça “Inspector-geral”, uma peça que já fiz quatro vezes e era para substituir um actor. Foi super divertido e estava com actores que admirava muito, a Graça Silva, Victor Rapouso, Adelino Branquinho, Jorge Vaz, Yolanda Fumo, e com a Isabel Jorge, era uma outra escola em que também aprendi muito. Depois dessa peça, a Manuela Soeiro convidou-me a fazer “Os Pilares da Sociedade”, foi mais interessante porque eu participei do processo, desde o trabalho de mesa, os ensaios, montar as cenas e perceber como o Mutumbela vivia, aprendi imensas coisas que carrego para a vida. Depois disso outros trabalhei noutros espectáculos, como o tributo a Mia Couto a convite dos TP50, um formato de espectáculos que me fazia voltar à infância, porque era como eu via os musicais na televisão. Foram surgindo parcerias com companhias internacionais cá, de directores que vieram a Moçambique e também houve saídas para fora do país.

 

A vida como um drama

 

Estamos a falar aqui de uma vida intensa em termos de trabalho. E qual é a ocupação do actor no dia-a-dia?

É engraçado. Muitas pessoas perguntam-me, Yuck, quando tu acordas, o que fazes? E então, as pessoas não imaginam que há imensas coisas por se fazer. Principalmente nesta fase que me encontro, pertenço ao Luarte e considero-me freelancer, tenho imensas coisas por fazer. Acho que o dia devia ter 48 horas. Tenho desde ensaios, preparação do corpo, tenho que me preparar sempre, tendo ou não trabalhos em produção, tenho de ensaiar sempre, e depois uma das coisas que tenho feito agora, é melhorar trabalhos que foram sendo criados nos últimos tempos. E nestes últimos tempos eu fui a residências, e elas tem a parte artística, tem os relatórios por escrever, tem as próprias notas por tirar, tens os conhecimentos para reorganizar depois de tudo que se vive dentro de uma residência artística, e depois hoje também não só me considero actor, como considero-me performer e como tal tenho que ir visitar outras disciplinas artísticas, como a dança, a música e também requer treino, intercâmbios, conhecer o mundo, ir ter e conviver com bailarinos, ter com os músicos e conviver com eles, então há sempre imensas coisas para se fazer.

 

O que significa para ti o teatro e para que serve?

O teatro para mim é tudo, não consigo viver sem o teatro. E quando penso o teatro penso a vida, então não consigo dissociar uma coisa da outra. Para mim o teatro é vida. Porque a vida é isso, são as emoções, as dores, a comédia, mas também o drama, é toda esta desconstrução, mas também construção, é o silêncio, para mim o teatro é tudo isso. Se me perguntas para que serve? É uma arma, que me permite lutar por tudo que é indignação que possa ter. Sou um artivista e a minha arte serve para advogar questões da comunidade LGBT, das crianças, questões de género. O meu pensar teatro tem que ver com tudo isso, que o teatro tem a capacidade de transformar, mas acima de tudo de provocar questionamentos, reflexões, e de despertar uma sociedade.

 

Pensar em Moçambique, para onde te leva?

Sinto que nós somos um país que está muito aberto às artes. Sempre se diz que o moçambicano tem um quê de qualquer coisa que não conseguimos explicar, eu acho que é a falta de vergonha. O moçambicano não tem vergonha. Então vamos explorar isso para fazer arte, para engajarmo-nos cada vez mais e, acima de tudo, tornar a arte acessível a todas as pessoas. Esse é o meu desejo. Que a arte chegue a todos os lugares, dos sítios mais recônditos, que a arte deixe de ser uma coisa das elites, mas que possamos ter arte nos distritos, nas localidades e que, acima de tudo, seja dada às crianças, porque quando olho para a minha infância vejo que fui um privilegiado, pude ter arte quando criança. Quero provocar isto até para os artistas, pensem quantas localidades nós temos, quantos distritos temos e quantas crianças estão lá que não tem creches como temos nas grandes cidades que poderiam estar a conhecer e entrar em contacto com a arte tão novos, para mim, hoje a minha luta é para que a arte chegue para as crianças e que elas cresçam com uma visão mais ampla do mundo.

 

ASSISTA À ENTREVISTA COM OUTRAS RESPOSTAS INTERESSANTES DE YUCK MIRANDA NO NOSSO CANAL

 

 

LEIA TAMBÉM