Desdém, portas fechadas, sem dinheiro e muitos livros por editar: a luta solitária das pequenas editoras

Desdém, portas fechadas, sem dinheiro e muitos livros por editar: a luta solitária das pequenas editoras

Três editoras diferentes e mesmo cenário, a paixão pelo livro e a necessidade de fazer o que poucos têm coragem: apostar no sector editorial e levar o livro para uma população que já há muito está rotulada como não leitora. A Fundza, Ethale Publishing e Trinta Zero Nove são editoras de livros e todas enfrentam os mesmos desafios, do desprezo ou desconsideração das livrarias à falta de incentivos do Governo, passando por uma educação que não transmite o valor do livro.

 

“Ninguém gosta de ler”, “o livro é carro”, “não há acesso ao livro”, “não há oportunidade para novos autores”, “não há livrarias”, “as bibliotecas não estão apetrechadas com obras de novos autores” são comentários que há muito marcam o “sistema” literário nacional. Um conjunto de preocupações de todos os tipos e vocabulários. Facto é que as respostas são escassas e são mais complexas que o grau de preocupação.

 

Num país de uma tradição literária não tão longínqua, os problemas no sector estão à vista, apesar dos esforços para que haja alguma literatura escrita a circular por meio do livro. Prestes a completar 45 anos de independência, Moçambique já conquistou feitos consideráveis no mundo literário, entre os quais, dois dos seus autores com obras entre os 100 melhores livros africanos do século XX, dois prémios Camões – o maior e mais importante prémio de literatura em língua portuguesa, um finalista Man Booker International Prize - importante na escala de subida ao Nobel de Literatura. Pode dizer-se que na Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa há uma imagem robusta, porém composta num eixo de cerca de uma dezena de autores.

 

A literatura moçambicana já provou ter autores de qualidade e continua a produzir nomes sonantes. Uma qualidade que em pouco tem a ver com o mercado editorial nacional que tem poucas marcas dignas desse nome. Quase todas as editoras de referência tiveram sempre de impor-se pelo livro escolar cujo financiamento para a sua edição e publicação está garantido pelo Governo. A literatura, essa, vem sempre à boleia.

 

Num cenário em que a lei do mercado é que mais determina o ritmo das publicações, vem as pequenas editoras a salvar uma comunidade de leitores que precisam de ler ficção. Nos últimos anos, esse grupo de micro e pequenas editoras tem assumido um importante papel, demarcando-se, claramente do seguimento das editoras “tradicionais” e famosas entre o público onde os autores novos têm sempre as portas fechadas e, por isso, influentes para a monotonia do mercado quanto à oferta literária.

 

Pelo contrário, as editoras de pequena dimensão vem com o diferencial notável da aposta num intenso trabalho com o texto, uma dedicação em todos os aspectos que acompanham uma obra literária que se quer com qualidade: a edição, a revisão, a paginação, o desenho da capa, o tipo de papel e o formato final da publicação. A esses factores exclusivamente editoriais vem ainda a componente marketing e a aproximação aos autores.

É visível a aposta na divulgação dos autores e das obras, apesar de várias dessas editoras não possuírem orçamentos largos e nem se quer dispor de recursos para marketing. Todos esses elementos, que mostram a preocupação com o livro como a totalidade de uma obra de arte, fazem destas editoras verdadeiras heroínas de um sistema que não lhes reconhece, como nos contam, à título de exemplo, os editores Jessemusse Cacinda (Ethale Publishing), Dany Wambire (Fundza) e Sandra Tamele (Trinta Zero Nove), que tem dedicado seus dias a esse trabalho.

 

Forçados a existir

 

Nem a Fundza, nem a Ethale Publishing e muito menos a Trinta Zero Nove são projectos que surgem pela ideia de criação de um negócio capaz de gerar renda e estabilidade na vida dos seus proprietários. Os livros e a literatura não dão dinheiro, dizem eles, acreditando, porém, que é possível gerar-se um ecossistema sustentável sob ponto de vista de compromisso com a cultura.

 

Aliás, Jessemusse Cacinda, editor e co-Fundador da Ethale Publishing, que tem cerca de três anos de existência, afirma mesmo que a editora não foi criada para ele e o seu parceiro, Alex Macbeth, ficarem “ricos”. “Somos pessoas comuns, que vivem uma vida comum, mas que acham que os livros devem chegar a todos”, diz ele.

 

A ausência de editoras que apostem em autores desconhecidos, independentemente da sua qualidade, foi o princípio para a criação da editora, segundo explicou Jessemusse Cacinda.

Em 2016, eu e Alex Macbeth estávamos a realizar um concurso literário inserido num festival que realizávamos em Nampula. Queríamos oferecer aos vencedores livros de 10 autores provenientes de igual número de países africanos, entretanto, não encontrámos livros em português de autores que representassem 10 países africanos. Queríamos igualmente editar uma antologia com os textos que faziam parte do concurso, mas não haviam editoras que investissem em vozes desconhecidas da literatura. Ai surgiu a ideia de criarmos uma editora que se focaria nestas lacunas existentes nos países africanos de língua portuguesa, mas que obviamente fizesse também a publicação de trabalhos científicos e outros géneros que permitam aos africanos conhecerem o seu próprio continente.”

 

Ora, a essência da Ethale vai para além das fronteiras moçambicanas. Um caminho pelo qual surge a editora Trinta Zero Nove, fundada por Sandra Tamele, cujo trabalho na sua área, a tradução, há muito vem sendo acompanhado e resultado em várias obras.

 

Sandra Tamele que designou a sua editora de Trinta Zero Nove em alusão ao dia internacional da tradução, 30 de Setembro, seu foco está na tradução para permitir a inclusão. Uma inclusão que não se limita ao acesso a autores mundiais que procura traduzir e publicar, mas às condições de acesso e ao género.

“Somos uma editora que prima pela inclusão económica, tentamos colocar o preço o mais próximo possível de uma recarga de telemóvel, também temos como objectivo de inclusão a questão de género, quando olhamos outros catálogos de editoras notamos que publicam mais homens e nós queremos publicar mais mulheres, e outro aspecto de inclusão é que fazemos o áudio-livro para tentar chegar a um leitor que normalmente não tem acesso ao livro impressos com tinta, como as pessoas cegas e analfabetas”, afirma Sandra.

 

A editora Fundza surge num outro contexto. Nasce na cidade da Beira, galvanizada pelo activismo literário em que seu fundador está envolvido através da Associação Literária Kulemba e da revista literária Soletras, de que era director.

A nossa editora não surge só para publicar e vender livros, quer formar leitores, quer ter um contacto horizontal com seus leitores, satisfazendo os seus interesses de leitura. Se conseguirmos isso, teremos seguramente pessoas para ler os nossos livros. E, por consequência, nascerão mais escritores”, explica Dany Wambire, escritor e editor.

 

Sem rentabilidade, mas não condenados à morte

No mundo de negócios a palavra sustentabilidade parece ditar a vida de um empreendimento. Para as pequenas editoras, apesar de pensarem todos dias nessa palavra, talvez pelo seu domínio das palavras, encontram um outro sentido para garantir que continuem a publicar livros.

 

Dany Wambire define a aposta na área editorial pelo activismo, sem pensar no lucro em dinheiro, mas a imaginar um mundo com livros e com leitores.

Talvez a expressão correcta seja empreendedorismo social. Pode-se montar a editora como um negócio, mas frustramo-nos na componente de sustentabilidade. Quando emperramos ali, temos que ser activistas para minimizar os prejuízos”, explica, ressalvando a importância do entendimento e da cumplicidade existente entre a editora e seus autores, estes que, por sua vez, procuram puxar pela “sobrevivência” de todos. “Os escritores procuram dar palestras e oficinas, pagam próprias passagens para fazer apresentações em diferentes pontos do país, organizam conversas e saraus. Tudo em nome da promoção do livro. A sobrevivência reside em saber combinar o negócio e o activismo”, pensa.

 

Uma actividade que peca por ser no livro que deposita a sua confiança, esse objecto que ninguém é capaz de comprar, fica difícil pensar nas mesmas oportunidades que instituições financeiras oferecem a outras pequenas e médias empresas.

 

Já contactamos bancos, várias ONG’s e, se ficássemos a espera de um financiamento externo, acho que não teríamos conseguido lançar a ideia. E depois acho que é preciso arriscar, mostrar que conseguimos fazer alguma coisa”, defende Sandra Tamele para quem é preciso que os editores também influenciem na mudança da visão em relação a actividade editorial.

 

Conversava, outro dia, com outros editores e eles diziam que enquanto nós concorrermos com uma recarga de telemóvel e uma cerveja não vamos conseguir vender livros, mas ao mesmo tempo não vemos ninguém a fazer um marketing agressivo de um livro, não vemos ninguém a tentar estar mais próximo do leitor e, quando digo leitor, não me cinjo ao leitor urbano, porque tenho impressão de que onde não há luz, outras formas de entretenimento, como futebol, teatro etc., é onde estão os nossos leitores e temos de levar o livro até eles, mas de facto é um desafio enorme, quase inalcançável para pequenas editoras”, disse a editora e tradutora que tem de se multiplicar em vários para colocar a editora em serviço.

 

Já o co-fundador da Ethale Publishing é mais poético na sua visão sobre a sustentabilidade, apesar de explicar que essa é uma questão acautelada, a pensar na longevidade da editora. “Gostaríamos de ter um mundo mais humano e mais criativo e isso só é possível através dos livros. Olhamos isto, acima de tudo, como um activismo em prol da literatura, da cultura e da comunicação. Entretanto, porque produzir livros inclui custos, temos de fazer algo para tornarmo-nos sustentáveis, porque precisamos de colaboradores para que este sonho não morra.”

 

Maltratados pelas livrarias

A Ethale Publishing tem já cerca de cinco obras no mercado, entre elas, clássicos de literatura africana traduzidos para português, exclusivamente para Moçambique, como “Matigari” do queniano Ngugi wa Thiong’o e mais recentemente “A greve dos mendigos” da senegalesa Aminata Sow Fall. Porque a sua função é editar livros, a disponibilização ao público passa, inevitavelmente, pelas livrarias.

 

A editora já teve de colocar os livros nesses espaços consagrados para a venda de obras, mas a realidade é caótica, conforme relata Jessemusse Cacinda, quando questionado sobre o tratamento que as pequenas editoras recebem por parte de diferentes entidades importantes na cadeia de produção e distribuição do livro, incluindo os autores, tendo em conta o estatuto de editora com baixos recursos.

 

“Com escritores não temos problemas, aliás, muitas vezes nós é que não temos fundos para levar avante seus projectos. As livrarias, na sua maioria não são sérias, elas tratam mal as pequenas editoras, o que as desmoraliza. Mas já falei que as livrarias são elitistas. Os médias estão mais preocupados com glamour do que com informação. Quanto às instituições de financiamento, há sempre o receio de não ter a certeza de que uma pequena editora mereça um financiamento, talvez porque há dúvidas se irão ou não gerir bem o dinheiro ou coisa parecida, mas a gente acredita que o nosso crescimento significa também quebrar esse tipo de barreiras.”

 

As livrarias, as editoras tradicionais, as instituições que promovem a literatura (falo das faculdades de letras e centros culturais) são elitistas, os jornalistas culturais também o são, o que faz com que não haja compromisso para que mais moçambicanos tenham acesso ao livro. Um outro obstáculo são as escolas que não ensinam os seus alunos a lerem livros, mas sim brochuras, por isso que um jovem que termina um curso universitário fala de fichas e cópias e nunca fala de livros”, acrescentou Jessemusse Cacinda.

 

As livrarias são também alvo de críticas por parte do editor da Fundza, a que mais possui publicações entre as três editoras que procuramos retratar nesta reportagem. A Fundza tem mais de 20 publicações, desde a poesia até ao conto infanto-juvenil. Das suas obras, apesar de terem estado em algumas estantes das livrarias, o dinheiro das vendas dificilmente chega às suas contas.

 

O pequeno, o novo ou o periférico é encarado com algum desdém no seu início. Tivemos dificuldades para meter livros nas livrarias. Agora, para não variar, algumas livrarias têm dificuldades em nos pagar. Das casas culturais, não temos razões de queixa. Acho que quase todos já compreenderam a nossa missão e nos têm ajudado. O facto de escolhermos autores muito “disponíveis”, dispostos a arriscar, que muito bem conseguem completar o trabalho da editora, nos tem ajudado bastante na remoção de muitos empecilhos.”

 

Sandra Tamele partilha uma outra experiência da editora Trinta Zero Nove. “Quando vamos a uma livraria que seria um parceiro ideal, apesar de serem poucas, por ai cinco ou seis e maioritariamente em Maputo, essa livraria quando tem meu produto quer a sua margem de lucro que não corresponde aquilo que vou tirar como editora de retorno, há aqui um desequilíbrio muito grande e é uma luta mesmo e as vezes sinto-me como na obra de Dom Quixote, a lutar com os moinhos de vento”.

 

A editora de Trinta Zero Nove, que existe há um ano, mas já com projectos editoriais ambiciosos, entre eles, as publicações de “A Perseverança” do poeta británico Raymond Antrobus e “Eu não tenho medo” do italiano Niccolò Ammaniti, aponta ainda as questões das percentagens exigidas pelas livrarias no acto de colocação das obras para venda ao público.

 

Menos de 30% acham que não é viável ter o produto nas suas prateleiras, porque dizem que tem custos, e os tem na verdade, mas ao mesmo tempo é extremamente injusto para nós, porque podemos estar a ganhar em cada livro, dois meticais”. E conclui, “Infelizmente, as livrarias não são sensíveis às editoras pequenas”.

 

Caminhos alternativos para fazer chegar o livro e não desistir

 

Pensar ainda na sustentabilidade, na edição como uma actividade lucrativa num país onde só se sabe dizer mal do livro, torna a aventura mais complicada. Mas é preciso não se deixar enganar pelas estatísticas que “não são fiáveis”, alerta Sandra Tamele, que acredita que há planos que podem dar certo e minimizar o impacto de algumas “pedras” no meio deste caminho.

 

Há muito ainda por se fazer e nunca devemos desanimar pelas estatísticas. As nossas estatísticas não são reais, não sabemos o número de leitores que temos, não sabemos quanto é que as pessoas lêem por ano, os números ou não existem ou não são fiáveis, então não podemos dizer que não temos leitores”, afirma a editora.

 

Neste mar de incertezas, para chegar a “ilha” de leitores, a internet tem sido a ponte quase comum das três editoras. Sandra Tamele aponta esse caminho, apesar dos desafios que exige. “A nossa editora tem uma presença online e tentamos fazer vendas directamente aos nossos leitores, mas vemos que no nosso cenário e, em Maputo principalmente, as pessoas querem entrar numa loja física, as pessoas não acreditam muito na loja online, existe aí uma questão de confiança que tem de ser criada”.

 

A Ethale Publishing tem se mostrado com um plano mais ambicioso. Em 2019 apresentou em público o projecto do seu aplicativo para a venda de livros digitais.

 

“A Ethale está a tentar construir um conceito de editora que está onde o leitor está e disponibiliza livro para além dos espaços habituais. Por isso, começamos a desenvolver o nosso aplicativo Ethale Books para livros digitais. Com ele, os livros em suporte digital estarão mais baratos. Temos muitos moçambicanos a usarem smartphones o que achamos que pode ser oportunidade para lerem livros. Enquanto isso, continuamos a promover o livro como um bem que vale a pena portá-lo”, explicou Jessemusse Cacinda.

 

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