Moçambique vive uma “crise de identidade”

Moçambique vive uma “crise de identidade”

Matilde Muocha entende que a crise de identidade, aos poucos, vai enraizando-se na sociedade moçambicana, caracterizando-se, particularmente, pelo “desprezo das nossas histórias familiares”.

A pesquisadora desafia à exploração das histórias familiares de modo que se construa uma “genealogia africana”, que explique as verdadeiras origens de cada indivíduo. Neste processo, deve ser encontrado um quadro de referências locais, que sirva de inspiração para os caminhos que as pessoas pretendem seguir.

“Você tem a história de Moçambique, em que lado você se encaixa? Sofremos crises de identidade porque não temos referência para continuar a criar”.

Para a historiadora, a crise de identidade tem uma explicação histórica, afinal, os povos africanos, na sua maioria, tiveram que enfrentar a escravatura e o colonialismo. Depois disto, como é o caso concreto de Moçambique, lutaram entre irmãos para alcançar fins diversos, dentre os quais, a democracia. Findo este processo, veio a globalização, nos inícios da década de 2000. Afinal, “não somos uma ilha e, por isso, recebemos muitas influências”.

A perspectiva histórica referenciada por Matilde Muocha, explica a razão pela qual “estamos fragmentados e criamos um muro de lamentações”, disse, alertando para que Moçambique não se acomode no sistema de “ensino convencional, que cria uma ruptura agressiva”, às bases tradicionais.

A educação e a história de África, defende Matilde Muocha, falham por seguir uma perspectiva ocidental e por desprezar as suas instituições tradicionais, apesar de Moçambique ser “produto de multi-identidades”.

Para terminar, a professora e historiadora disse que a crise de identidade, por resultar da ausência de um quadro de referências locais, leva à importação das outras culturas e à sonegação daquilo que somos realmente, o que se reflecte em muitos fracassos no que respeita a questões ligadas à cidadania e às artes e cultura.

“Estamos a produzir músicas baseadas noutras realidades e vendemos coisas bem feitas noutros lugares (…) os moçambicanos tem problemas de auto-negação”, considera Matilde Muocha.

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