Alfarrabistas, deuses talvez

Alfarrabistas, deuses talvez

As editoras e livrarias, com o dinamismo impigido pelo lucro, dão e tiram vida aos livros com uma rapidez vertiginosa. Mas existem os alfarrabistas, deuses talvez, que lhes permitem uma nova vida. E ainda bem Todos conhecem a história de Robin Hood, o héroi de arco e flecha que roubava dos ricos para dar aos pobres. São também assim os alfarrabistas, versões de Robin Hood. Alguns livros chegam-nos em prejuízo das livrarias, conservando, ainda, os exorbitantes preços. E é propositado, uma prova do quão irrisório é o novo montante exigido. Mas há também relíquias. Obras que há muito saíram do circuito das livrarias ou que nunca entrar(i)am neste circuito, que por algum acaso do destino, acabam lhes caindo às mãos e ganhando um novo fôlego. E eles sabem disso. E João Paulo Borges Coelho também. Na crónica que leva o nome de prólogo do seu romance Rainhas da Noite (Caminho, 2013), o autor narra a experiência de comprar livros aos alfarrabistas, na Avenida Kim Il Sung, marcada por idas, vindas e desdém para apoucar (créditos ao autor) o preço do livro A Ilha de Próspero de Rui Knopfli. “Confesso que cheguei a enveredar por caminhos tortuosos, afirmando que o preço que ele pedia seria adequado se as fotos fossem coloridas e ali se contasse uma história com pés e cabeça, o que manifestamente não era o caso”. Não tendo esta estratégia dado certo, o autor conta, volvidos alguns parágrafos “(…) recorri ao estratagema clássico de me despedir, simulando interesse nos livros de vendedores vizinhos (…)” Quantas vezes valemo-nos destas estratégias. Não é à isto que os críticos literários chamam verossimilhança? No entanto, porque todas as estratégias serviram de nada, o autor volta e paga o preço estipulado. À custa do troco que merecia (por direito), o alfarrabista propõe ao autor um diário manuscrito de “uma tal Maria Eugénia Murilo”. É este caderno o mote do romance Rainhas da Noite. O título faz alusão às plantas predominantes no espaço geográfico que grande parte da narrativa se insere, não alude à profissão mais antiga do mundo, não nos enganemos. Fomos tentandos, pela leitura da obra, a desconfiar da verdade da realidade ficcionada e andar de alfarrabista em alfarrabista, ao longo da Kim Il Sung, com a foto de João Paulo Borges Coelho em riste, perguntando-os se o autor havia por lá passado, se algum deles o teria vendido o referido diário. Mas não precisamos usar a foto, apenas a estória – história, agora sabemos. O Maldito Vendedor Era quarta-feira. Sopravam os primeiros ventos, uma leve brisa ainda lembrava o frio da madrugada. Mas o sol já anunciava um dia de calor premente. Algumas pessoas estavam já nos seus postos de trabalho. Outras estavam a caminho, esticando os passos ou apinhadas nos transportes públicos. Lojas começavam a perder as grades que protegem da madrugada. Entre a Avenida Mao Tsé-Tung e a Kim Il- Sung montes de livros começam a ser desfeitos sobre cartões formando uma montra com os mais variados títulos e géneros, dos poéticos aos científicos, do português ao russo, das traduções aos originais, de Charles Dickens a Émile Zola, obras que talvez as livrarias há muito relegaram ao esquecimento. Há 17 anos, Agostinho Matavele dedica-se a venda de livros. Tudo começou, tinha então 23 anos, com apenas um livro. Na verdade, comprou-o para que ele mesmo lesse. Mas depois de terminada a leitura, alguém perguntou-lhe se estaria o livro a venda, disse sim e vendeu. Pensou que pudesse ser um negócio rentável. Comprou, logo depois, 5 ou 10 livros para revendê-los. Hoje, são centenas e centenas de livros, que pela manhã, estão enfileirados sobre o papelão. Matavele é o “maldito vendedor” do prólogo de Rainhas da Noite. Lembra da manhã que João Paulo Borges Coelho chegou-lhe à banca, da negociação complicada, do autor a simular desistência, mas também do autor ter voltado para comprar o livro e levar também o diário. Ele, que está habiatuado a vender, nunca pensou em ser parte ou em contribuir para dar vida a um livro. A citação no livro - com este adjectivo que ele acha graça - rendeu-lhe muitas visitas. “Fiquei famoso”, constata. O diário chega-lhe às mãos junto de outros tantos livros. Apareceu-lhe um Senhor - “de nacionalidade portuguesa”, lembra – que ia viajar, precisava se desfazer da sua biblioteca, não a podia levar na bagagem. “Ofereceu-me”. Eram vários os títulos e os géneros e entre eles o diário de Maria Eugénia Murilo. Logo depois de Rainhas da Noite chegar às livrarias, Matavele conta que lhe apareceu um cliente também a procura de um qualquer diário manuscrito, talvez com a pretensão de escrever um romance. “Até consegui arranjar-lhe. Mas a pessoa acabou viajando. Não sei o que fez do caderno”. Os livros que fazem seu acervo chegam de várias formas. “Alguns são comprados, outros oferecem-me por pessoas ou instituições”. Os livros oferecidos tem os preços reduzidos. Os mais vendidos são de literatura moçambicana, sobretudo, dos autores mais conhecidos. “Mia Couto, Ungulani ba ka Khossa, Paulina Chiziane não ficam na banca”. Hoje, entende Agostinho ao contrário do que dizem várias vozes – incluídas as dos alfarrabistas - que o nível de leitura aumentou. Avalia a partir da procura pelo livro e do número de pessoas que se dedica a venda dos livros. “Muitos estudantes procuram obras”. “Temos livros que não se podem mais encontrar nas livrarias”, gaba-se Matavele. E o seu acervo de relíquias permite que sustente a família. E passe para ela este hábito de leitura, como foi o caso da filha, hoje com 21 anos, e a cursar gestão de recursos humanos no instituto superior de Gestão, Comércio e Finanças. “O Amor pela leitura já não existe” Trabalha com livros há mais de 10 anos. E a rua que escolheu para se instalar mostra ao que se vai, Os Lusíadas, título da obra que eternizou Luís Vaz de Camões. Nelson Cumbane estava, quando nos colocamos à conversa, a restaurar alguns livros. As chuvas repentinas que não permitem proteger, a tempo, os livros, acabam desfazendo os dizeres que os rotulam. Ele é obrigado a escrevê-los numa espécie de cartolina. A relação com os livros é já antiga. Comprava-os para ler e tê-los em casa. Mas sempre que alguém o visitasse e pedisse emprestado, nunca mais devolvia. “Perdi muitos livros”. Cumbane, que trabalhava com molduras, um negócio, como ele diz, que rendia apenas em determinadas épocas, decidiu-se pela compra de livros para revenda. “O livro não tem épocas. Compram todos os dias”. E já passam 13 anos, neste meio tempo, teve casa própria e contraiu matrimónio e cuida dos três filhos. “Os mais velhos começam já a ler”. Estendidos sobre cartões de papelão por cima dalgumas caixas estão as edições do Instituto Nacional do Livro e do Disco de Monção de Luís Carlos Patraquim e Portagem de Orlando Mende ou O Cronista de Areosa Pena. A maioria dos livros chegam-lhe a partir de pessoas que, pela necessidade de se desfazer deles, resolvem vender. “Acabamos comprando, porque sabemos que outras pessoas podem precisar”. Mas tem também contacto com as livrarias. Leva os livros para revende-los, devolve o valor das livrarias e fica com a sua parte, o lucro. Nelson tem catalogados, na memória, todos os livros. E é a temática, o conteúdo e o autor que lhe levam a marcar o preço. Por isso, antes de coloca-los para venda, é obrigado a ler, ainda que seja uma leitura em diagonal. São centenas de livros que se apresentam aos mais variados leitores, partem dos 120 aos 3500. “Os mais caros têm a ver com Arquictetura”. Cumbane nota, a partir do fluxo de clientes que já foi maior em outras épocas, que haja défice de leitura. “O amor pela leitura já não existe”. Os estudantes, conta o alfarrabista, quando são obrigados pelos professores, quando a partir da leitura tem de fazer alguma análise, pedem livros menores. “Não querem romances extensos, porque não os podem ler. Mas são os mesmos jovens que choram pelo emprego. Como serão empregados se nem sabem elaborar uma carta?”. Noutros tempos, aqueles que havia pessoas ávidas de ler livros, talvez nem tivéssemos a conversa. “Estaria nas livrarias ou noutros alfarrabistas a procura de material que as pessoas encomendassem”. Resistente de um mercado em falência Arnaldo Murure dedica-se a venda de livros usados desde 1995, depois de ter chegado a Maputo 4 anos antes, vindo de Vilanculos a procura de melhores condições de vida. “A venda de livros foi uma forma de ultrapassar a falta de emprego”. Começou, influenciado por um amigo, a vender terços, pouco depois também Bíblias, “O Pão de Tudo”, lembra. Mas, volvido mais algum tempo, percebeu que alguns alfarrabistas vendiam alguns títulos e exemplares de Rua Sésamo, comprou-os para revenda e estendeu o raio para literatura e livros escolares que, hoje, lhe são vendidos por pessoas ou pelas livrarias. E é o preço da compra, como em todo o negócio que busca lucro, que dita o preço da venda. Encontramo-lo na avenida Ho Chi Minh, defronte ao Edifício do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, o seu acervo vai dos livros escolares aos de literatura. Podem ser vistos alguns títulos de livros de bolso das edições europa-américa, como A Mãe de Máximo Gorki, este livro que Bertolt Brecht usou como base para escrever o espectáculo homónimo cuja adaptação da Companhia de Teatro Inversos pôde ser vista nalguns espaços culturais da Cidade de Maputo. Há três anos, Murure, percebeu que o mercado dos livros está em falência. Os telemóveis, entende, minam a vida dos livros. “As pessoas já não estão preocupadas com literatura”. Conta que fica até dois dias sem vender livros. Mas já está habituado a estas mazelas do trabalho. Mas enquanto os leitores-compradores não lhe aparecem, aproveita, ele mesmo, para ler os livros. E resiste.

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